MANUAL METODOLÓGICO: Ferramenta de avaliação técnico-econômica da produção de SAF no Brasil – Rotas HEFA e ATJ
JUNHO DE 2026 NOTA TÉCNICA
NOTA TÉCNICA EPE/DPG/SDB/2026/04
Coordenação Executiva
Angela Oliveira da Costa
Coordenação Técnica
Angela Oliveira da Costa
Rachel Martins Henriques
Rafael Barros Araujo
Equipe Técnica
Arthur Cortez Pires de Campos
Juliana Pereira Targueta
Mariana Côrte da Silva (Estagiária)
Paula Isabel da Costa Barbosa
Rachel Martins Henriques
Rafael Barros Araujo
Rafael Belém Lavrador
Técnica em Secretariado
Raquel Lopes Couto
Ministro de Estado Alexandre Silveira de Oliveira Secretário-Executivo Gustavo Cerqueira Ataíde Secretário de Energia Elétrica João Daniel de Andrade Cascalho Secretário de Geologia, Mineração e Transformação Mineral Ana Paula Lima Vieira Bittencourt Secretário de Transição Energética e Planejamento VAGO Secretário de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Renato Cabral Dias Dutra http://www.mme.gov.br
Presidente Thiago Guilherme Ferreira Prado Diretor de Estudos Econômico-Energéticos e Ambientais Thiago Ivanoski Teixeira Diretor de Estudos de Energia Elétrica Reinaldo da Cruz Garcia Diretora de Estudos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis Heloisa Borges Bastos Esteves Diretor de Gestão Corporativa Carlos Eduardo Cabral Carvalho http://www.epe.gov.br
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VALOR PÚBLICO
A EPE REALIZA ESTUDOS E PESQUISAS PARA SUBSIDIAR A FORMULAÇÃO, IMPLEMENTAÇÃO E AVALIAÇÃO DA POLÍTICA E DO PLANEJAMENTO ENERGÉTICO BRASILEIRO.
A FERRAMENTA PARA AVALIAÇÃO DA VIABILIDADE ECONÔMICA DA PRODUÇÃO DE SAF NO BRASIL, DESENVOLVIDA PELA EPE, AUXILIA AGENTES PÚBLICOS E PRIVADOS A TOMAR DECISÕES EMBASADAS PARA FORTALECIMENTO E EXPANSÃO DA PRODUÇÃO DE COMBUSTÍVEIS SUSTENTÁVEIS DE AVIAÇÃO NO PAÍS.
NO SEU PAPEL DE DIRIMIR ASSIMETRIAS DE INFORMAÇÃO, A EPE SE COLOCA, ATRAVÉS DESSA FERRAMENTA, COMO ALAVANCADORA DO DESENVOLVIMENTO DESSE NOVO MERCADO, AUMENTANDO A SUSTENTABILIDADE DA MATRIZ ENERGÉTICA BRASILEIRA E AUXILIANDO O BRASIL A SE POSICIONAR COMO REFERÊNCIA INTERNACIONAL PARA A TRANSIÇÃO ENERGÉTICA.
AVISO
A FERRAMENTA PARA AVALIAÇÃO DA VIABILIDADE ECONÔMICA
DA PRODUÇÃO DE SAF NO BRASIL, DESENVOLVIDA PELA EPE, TEM
COMO OBJETIVOS SUBSIDIAR O PLANEJAMENTO ENERGÉTICO
NACIONAL E APOIAR AGENTES PRIVADOS E PÚBLICOS COM ESTUDOS
PROSPECTIVOS. QUAISQUER RESULTADOS GERADOS POR ESTA
FERRAMENTA DEVEM SER ENTENDIDOS COMO VALORES
PRELIMINARES.
LOGO, QUAISQUER DECISÕES DE ENCAMINHAMENTO (COMO
FORMULAÇÕES DE POLÍTICAS PÚBLICAS, DEFINIÇÕES DE DIRETRIZES
ESTRATÉGICAS, DECISÕES DE INVESTIMENTO OU DE ESTRATÉGICAS
DE NEGÓCIO ETC.) SÃO DE RESPONSABILIDADE DE OUTRAS
INSTITUIÇÕES PÚBLICAS E PRIVADAS.
A EPE SE EXIME DE QUALQUER RESPONSABILIDADE POR
QUAISQUER AÇÕES E TOMADAS DE DECISÃO QUE POSSAM SER
REALIZADAS POR AGENTES ECONÔMICOS OU QUALQUER PESSOA
COM BASE NOS RESULTADOS DESTA FERRAMENTA.
A EPE DEVE SER CITADA COMO FONTE PARA A PUBLICAÇÃO
DE QUAISQUER RESULTADOS DERIVADOS DO USO DESTA
FERRAMENTA.
Identificação do Documento e Revisões
Área de estudo Diretoria de Estudos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (DPG) Superintendência de Derivados de Petróleo e Biocombustíveis (SDB) Estudo
Revisão Data de emissão Descrição R0 Publicação Original
Sumário
- Introdução..................................................................................................................... 3 1.1. Motivação ................................................................................................................. 3 1.2. Lógica geral da ferramenta ..................................................................................... 4 1.3. Guia de uso da ferramenta ..................................................................................... 5
- Modelagem de Processo .............................................................................................. 9 2.1. Diagrama de blocos ................................................................................................. 9 2.2. Inventário de entradas e saídas ........................................................................... 10
- Cálculo do Preço Mínimo de Viabilidade do SAF e inclusão do Prêmio ao Produtor . 12 3.1. Parâmetros característicos da planta .................................................................. 12 3.2. Custos de capital totais (CAPEX) ........................................................................... 13 3.3. Custos de operação anuais (OPEX) ...................................................................... 15 3.4. Receitas Anuais ...................................................................................................... 16 3.5. Fluxo de caixa descontado pela taxa de custo médio de capital ....................... 17 3.6. Prêmio ao produtor ................................................................................................ 19
- Cálculo da intensidade de carbono ............................................................................ 20 4.1. Métodos de cálculo ................................................................................................ 21
- Referências ................................................................................................................. 24 Anexo A – Propriedades físico-químicas consideradas para conversões de unidades ........ 26
Figuras Figura 1 - Representação esquemática dos fluxos de entrada e saída dos modelos implementados. ................................................................................................................................... 4 Figura 2 - Implementação dos modelos na ferramenta. ....................................................... 5 Figura 3 - Aba de interface básica em formato não expandido. ........................................... 6 Figura 4 - Aba de interface básica com opções detalhadas de entrada expandidas. ........ 7 Figura 5 - Aba de interface básica com opções detalhas de resultados expandidas. ........ 7 Figura 6 - Aba "Parâmetros Econômicos e Financeiros". A mesma lógica se aplica apara a aba "Parâmetros Técnicos”. ................................................................................................................ 8 Figura 7 - Diagrama de blocos simplificado do processo HEFA. ......................................... 10 Figura 8 – Diagrama de blocos simplificado do processo ATJ. ........................................... 10 Figura 9 - Correlação entre o CAPEX e a Capacidade Nominal (inclui produção de SAF, diesel verde e bioNafta) para plantas HEFA. ................................................................................... 14 Figura 10 - Correlação entre o CAPEX e a Capacidade Nominal (inclui produção de SAF, diesel verde e bioNafta) para plantas ATJ. ....................................................................................... 14
Tabelas Tabela 1 - Abas de trabalho da ferramenta desenvolvida. ................................................... 6 Tabela 2 - Referências consideradas para a conceituação dos diagramas de bloco das rotas HEFA e ATJ. ................................................................................................................................. 9 Tabela 3 - Valores típicos de consumo e produção em plantas do tipo HEFA e ATJ. ........ 11 Tabela 4 – Correlações utilizadas para estimativa do CAPEX. ........................................... 13 Tabela 5 – Valores considerados para estimativa dos custos fixos de operação............. 15 Tabela 6 – Valores default utilizados para custos de insumos e utilidades e para custo de tratamento de água residual. ............................................................................................................ 16 Tabela 7 – Valores default utilizados para preços de venda dos coprodutos. .................. 17 Tabela 8 – Parâmetros de fluxo de caixa considerados e valores default estabelecidos para cada um. ............................................................................................................................................. 17 Tabela 9 - Métodos implementados para cálculo de IC do ACV do SAF. ........................... 22 Tabela 10 - Métodos implementados para cálculo de IC final de SAF de acordo com o mercado simulado. ............................................................................................................................ 22 Tabela 11 – Valores utilizados para carga ambiental das entradas do volume de controle para o método de cálculo “ACV valores médios Brasil” .................................................................. 23 Tabela 12 – Intensidades de carbono dos equivalentes fósseis para os produtos. ........ 23
3
- Introdução 1.1. Motivação O transporte aéreo, que representa cerca de 2,5 % das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE) associadas ao uso de energia (IEA, 2025), constitui um segmento especialmente complexo para descarbonização devido aos desafios técnicos associados à eletrificação de aeronaves comerciais. O uso de combustíveis líquidos renováveis e de baixa intensidade de carbono, denominados “combustíveis sustentáveis de aviação” (SAF), se destaca como uma das poucas alternativas efetivas para redução de emissões desse segmento em curto e médio prazos. A aviação comercial pode ser analisada sob duas óticas distintas: voos nacionais e internacionais. No âmbito internacional, a descarbonização do transporte aéreo é regida por um mecanismo global denominado CORSIA 1 , coordenado pela OACI 2 , no qual foi elaborado um cronograma progressivo de redução de intensidade de carbono dos voos que deve ser mandatoriamente implementado pelas companhias aéreas dos países aderentes a partir de
- Já no âmbito nacional, o Brasil instituiu, em outubro de 2024, o programa ProBioQAV por meio da Lei do Combustível do Futuro (Lei n° 14.993 de 2024), que também estabelece um cronograma mandatório de redução de emissões, chegando a 10% em 2037. Assim, espera-se que a demanda por SAF aumente nas próximas décadas, tanto no âmbito nacional quanto internacional. Entretanto, a capacidade global instalada para produção de SAF se restringe, hoje, a 8,3 Mm³ / ano (EPE, 2025a), significativamente aquém das necessidades estabelecidas pelos programas. O Brasil se notabiliza como uma potência agrícola, tendo um alto volume disponível de matérias-primas renováveis que podem ser destinadas à produção de SAF, como óleos vegetais, gorduras animais e etanol. Nesse sentido, a produção desses combustíveis no território nacional poderia representar uma significativa oportunidade de negócio, aproveitando-se de vantagens competitivas do país em um mercado global. Em especial, duas rotas produtivas se destacam como oportunidades para implementação imediata: a rota HEFA 3 , que converte diretamente óleos e gorduras em SAF, e a rota ATJ 4 , baseada na conversão de etanol em SAF. Nesse contexto, a EPE desenvolveu uma ferramenta para avaliação da viabilidade do SAF produzido no Brasil através dessas rotas, utilizando óleo de soja (com ou sem incorporação de sebo bovino) e etanol (1G, de cana ou milho), respectivamente. Dessa forma, dentro do âmbito das suas atribuições de dirimir a assimetria de informações e auxiliar na formulação de políticas públicas, a EPE disponibiliza à sociedade uma ferramenta única que leva em conta aspectos intrínsecos da realidade brasileira, avaliando a competitividade do país nesse promissor mercado emergente.
1
Sigla do inglês para “Carbon Offsetting and Reduction Scheme for International Aviation”.
2
Sigla para Organização da Aviação Civil Internacional
3
Sigla do inglês “Hydroprocessed Esters and Fatty Acids”.
4
Sigla do ingês “Alcohol to jet”.
4
1.2. Lógica geral da ferramenta O objetivo principal desta ferramenta é analisar a produção de SAF do ponto de vista econômico, visando a determinação do preço mínimo de viabilidade do biocombustível. A partir desse cálculo, a ferramenta permite também a inclusão de detalhamentos acerca do modelo de negócios implementado, de forma a obter uma análise de fluxo de caixa completa para uma planta produtora. De maneira geral, foram implementados dois modelos complementares: (i) um modelo financeiro baseado na adoção de uma metodologia de fluxo de caixa descontado (DCF 5 ), resultando em parâmetros como Valor Presente Líquido (VPL) e Taxa Interna de Retorno (TIR) do empreendimento; e (ii) um modelo de intensidade de carbono (IC), resultando na IC calculada para o biocombustível produzido de acordo com o mercado visado 6 . A Figura 1 resume os parâmetros de entrada necessários e os parâmetros de saída principais obtidos por cada modelo.
Figura 1 - Representação esquemática dos fluxos de entrada e saída dos modelos implementados. Fonte: Elaboração própria Nota: As especificações básicas da planta constituem os únicos parâmetros de preenchimento obrigatório pelo usuário para funcionamento da ferramenta. Os demais parâmetros são pré-preenchidos com valores default, que podem ou não ser alterados pelo usuário conforme lhe for conveniente. O modelo DCF é implementado em duas instâncias distintas na ferramenta. Em um primeiro momento, o modelo financeiro é utilizado para calcular o preço mínimo de viabilidade do SAF produzido, ou seja, o preço necessário para que o VPL do projeto seja igual a zero. Resumidamente, esse valor consiste no preço mínimo de venda do combustível necessário para que a planta recupere o custo de operação e remunere o capital investido para sua construção.
5 Sigla do ingles para “Discounted cash flow” 6 O modelo desenvolvido replica as premissas adotadas em cada programa para cálculo da IC, conforme detalhado na seção 4, com o interesse de analisar a competitividade do combustível produzido nos mercados visados. Não faz parte do escopo deste trabalho discutir a pertinência dos aspectos metodológicos do cálculo de IC do SAF.
5
O usuário pode, então, informar um valor de prêmio ao produtor a ser considerado e outras especificações do modelo de negócios. A ferramenta, então, implementa o modelo DCF uma segunda vez, calculando, nesse caso, os valores efetivos de VPL e TIR do projeto a partir do prêmio definido. É também nesse momento que o modelo de intensidade de carbono é aplicado, resultando em um detalhamento do custo de redução de emissões a ser pago pelo consumidor em cada mercado a partir do modelo de negócios definido. A Figura 2 detalha o uso dos modelos na ferramenta.
Figura 2 - Implementação dos modelos na ferramenta. Fonte: Elaboração própria
1.3. Guia de uso da ferramenta
A ferramenta foi dividida em seis abas de trabalho, listadas na Tabela 1, nas quais o
usuário insere os parâmetros de entrada necessários e pode avaliar os resultados dos modelos
implementados, conforme descrito nas Figura 1 e Figura 2.
A aba de interface básica consiste na aba principal da ferramenta. Nela, o usuário insere
as especificações básicas da planta e os detalhamentos de seu modelo de negócios e executa a
simulação desejada. Os principais resultados, incluindo detalhamentos por mercado, são
também apresentados nessa aba.
Os demais parâmetros de entrada podem ser modificados nas abas “Par. Econômicos e
financeiros” e “Parâmetros técnicos”.
As interfaces de algumas das abas são apresentadas nas Figura 3Figura 4, Figura 5 e
Figura 6, para ilustrar o funcionamento da ferramenta.
6
Tabela 1 - Abas de trabalho da ferramenta desenvolvida.
Aba Função Descrição
Apresentação - É aba de capa da ferramenta, contém diagramas
esquemáticos para auxiliar no uso correto do produto.
Interface Básica Inserção de Dados de Entrada
Apresentação de Resultados
É a aba de uso principal da ferramenta.
Nela, o usuário insere os dados básicos de detalhamento
tecnológico da planta a ser simulada, além de informações
sobre o modelo de negócios adotado.
Após pressionar o botão calcular, é nesta aba também que
são apresentados os principais resultados: preço mínimo de
viabilidade, informações de projeto, detalhamento do custo
de abatimento de carbono.
Par.
Econômicos e
financeiros
Inserção de Dados de Entrada Nesta aba, o usuário tem a opção de alterar os parâmetros
econômicos e financeiros considerados na simulação. Estes
parâmetros são pré-preenchidos, de forma que o usuário só
tem necessidade de informá-los caso tenha informações
próprias detalhadas.
Parâmetros
técnicos
Inserção de Dados de Entrada Aba similar à anterior, porém dedicada aos parâmetros
técnicos de processo da planta.
Resultados
detalhados
Apresentação de Resultados Nesta aba, o usuário tem acesso aos valores detalhados
calculados para o fluxo de caixa ano a ano do
empreendimento simulado.
Histórico de
Cálculos
- As simulações realizadas são salvas nesta aba, que permite ao usuário exportar seus resultados em formato .xlsx
Figura 3 - Aba de interface básica em formato não expandido.
7
Figura 4 - Aba de interface básica com opções detalhadas de entrada expandidas.
Figura 5 - Aba de interface básica com opções detalhas de resultados expandidas.
8
Figura 6 - Aba "Parâmetros Econômicos e Financeiros". A mesma lógica se aplica apara a aba "Parâmetros Técnicos”.
9
- Modelagem de Processo 2.1. Diagrama de blocos A modelagem dos processos foi realizada de maneira simplificada através de diagramas de bloco, com foco nos fluxos mássicos e energéticos de entrada e saída da planta produtiva, representada de maneira global. As Figura 7 e Figura 8 apresentam os diagramas de blocos considerados para os processos HEFA e ATJ, respectivamente, presumindo unidades autônomas de produção 7 . Ressalta-se que tais diagramas, assim como os valores numéricos designados para cada corrente (seção 2.2), se basearam em uma extensa revisão de literatura de artigos científicos e relatórios institucionais (Tabela 2) que realizaram a modelagem técnica rigorosa dos processos.
Tabela 2 - Referências consideradas para a conceituação dos diagramas de bloco das rotas HEFA e ATJ. Rota Referências HEFA Aburto et al. (2025); Klein et al. (2018); Martinez-Hernandez et al. (2019); Mousavi-Avval & Shah (2021); Ng et al, (2021); Pavlenko et al. (2019); Tanzil et al. (2021); Tao, Milbrandt, et al. (2017b); Wang (2016, 2019) ATJ Aburto et al. (2025); Akter et al. (2024); Crawford et al. (2016); Han et al. (2017); Hong et al. (2025); Klein et al. (2018); Marreco (2022) ; Ng et al. (2021); Pavlenko et al. (2019); Tanzil et al. (2021); Tao, Markham, et al. (2017a); Teixeira et al. (2024); Yao et al. (2017) Fonte: Elaboração própria
7 Unidades autônomas são entendidas como unidades não integradas a plantas produtoras de matéria-prima.
10
Figura 7 - Diagrama de blocos simplificado do processo HEFA.
Fonte: Elaboração própria
Figura 8 – Diagrama de blocos simplificado do processo ATJ. Fonte: Elaboração própria 2.2. Inventário de entradas e saídas Para cada uma das plantas modeladas nos estudos referenciados na Tabela 2, foram levantadas as quantidades de insumos (óleos e gorduras, etanol, hidrogênio e catalisadores) e utilidades (eletricidade, calor e água de resfriamento) consumidas, de coprodutos (diesel verde, bioNafta e bioGL) produzidos e de resíduos gerados (água para tratamento). A partir disso, um inventário típico de entradas e saídas para as tecnologias HEFA e ATJ foi obtido baseando-se na média dos valores reportados em cada estudo, conforme apresentado na Tabela 3. Ressalta-se que nem todos os artigos considerados disponibilizaram todos os parâmetros incluídos no inventário, de forma que cada parâmetro foi calculado utilizando somente os valores efetivamente reportados na literatura. Além disso, a composição de saída do produto líquido se baseou somente nos artigos que consideraram a nafta como principal coproduto, configuração que privilegia SAF em detrimento de diesel verde.
11
Em casos em que outras propriedades físico-químicas dos produtos envolvidos foram necessárias para conversões de unidade, utilizou-se os fatores apresentados no Anexo A.
Tabela 3 - Valores típicos de consumo e produção em plantas do tipo HEFA e ATJ. HEFA ATJ Insumos e utilidades Óleos e gorduras (l/l comb. líquido) * 1,062 - Etanol (l/l comb. líquido) - 1,805 Hidrogênio (kg/l comb. líquido) * 0,033 0,016 Catalisadores (g/l comb. líquido) ** 0,118 1,764 Eletricidade (kWh/l comb. líquido) 0,058 0,186 Calor (MJ/l comb. líquido) 2,511 2,036 Água de resfriamento (l/ l comb. líquido) 3,20 6,02 Produtos SAF (% comb. líquido) * 65% 75% Diesel Verde (% comb. líquido) * 5% 6% bioNafta (% comb. líquido) * 30% 19% bioGL (l/l comb líquido) * 0,0375 - Resíduo Água residual (l/l comb. líquido)
0,080 0,699 Fonte: Elaboração própria Nota 1: Todos os valores consideram a quantidade total de combustível líquido produzida, o que inclui as correntes de SAF, Diesel Verde e bioNafta. *Nota 2: Os consumos de óleo, hidrogênio e a composição da cesta de combustíveis produzida para a rota HEFA podem se modificar no caso de utilização de sebo bovino como matéria-prima, pois o inventário considera somente modelagens que utilizam óleo vegetal. **Nota 3: A quantidade de catalisadores compreende o total requerido em todas as etapas dos processos, o que inclui diferentes tipos de catalisadores, que não foram individualmente discriminados. *** Nota 4: Para o caso da rota ATJ, a produção de água residual foi ajustada de acordo com o balanço de massa da planta referência. O mesmo não foi feito para HEFA, pois essa rota produz também gases residuais na forma de CO, CO2 etc.
A quantidade de gás natural ou de cavaco de madeira necessários para suprir as
demandas de calor das plantas são calculadas considerando eficiências de caldeira de 94,5 % e
89,0 %, respectivamente
8
(VAKKILAINEN, 2017).
Finalmente, é importante ressaltar que a ferramenta disponibilizada utiliza os valores
obtidos neste inventário de entradas e saídas como valores default para cálculo do preço mínimo
de venda de SAF. Entretanto, o usuário pode alterá-los conforme lhe convir, de forma a aproximar
as simulações realizadas para situações particulares reais.
8 Naturalmente, é possível utilizar outros recursos energéticos para o fornecimento de calor na planta. Entretanto, nesta ferramenta foram implementados dados de processo e custo somente para Gás Natural e Cavaco de Madeira.
12
- Cálculo do Preço Mínimo de Viabilidade do SAF e inclusão do Prêmio ao
Produtor
O preço mínimo de viabilidade do SAF (MSP
9
) é definido como o preço mínimo de venda
do combustível necessário para suprir os custos operacionais de funcionamento da planta e
remunerar adequadamente o capital investido. Nesta ferramenta, o MSP é calculado a partir da
modelagem do fluxo de caixa descontado da planta. Para tanto, são inicialmente calculados o
custo total de capital requerido (CAPEX) e o custo de operação por litro de combustível (OPEX),
tomando como base os parâmetros característicos do empreendimento definidos pelo usuário.
3.1. Parâmetros característicos da planta
Para realizar o cálculo do preço mínimo de viabilidade do SAF, é necessário inicialmente
definir as características básicas da planta produtiva considerada na simulação. Nesta
ferramenta, quatro parâmetros-chave são utilizados para caracterizar o empreendimento a ser
avaliado:
a. Rota produtiva: o usuário pode escolher entre a rota HEFA e ATJ, conforme descrito
na seção 2.1;
b. Matéria-prima utilizada: apesar de não alterar o processo industrial modelado, a
origem da matéria-prima interfere no cálculo da intensidade de carbono do
combustível produzido, conforme especificado na seção 4, e pode alterar seu custo.
i. Rota HEFA: o usuário pode escolher entre utilizar óleo de soja puro ou contendo até 30% (base mássica) de sebo bovino. Dentro dessa faixa, espera-se que o processo industrial seja semelhante, independentemente da matéria-prima. Entretanto, ressalta-se que a inclusão de sebo bovino pode gerar resultados menos precisos porque pode modificar os consumos de óleo e hidrogênio e a composição da cesta de combustíveis produzida (Tabela 3). ii. Rota ATJ: o usuário pode escolher entre utilizar etanol de primeira geração oriundo de cana-de-açúcar ou de milho de segunda safra. c. Capacidade nominal da planta: consiste na capacidade máxima de produção do empreendimento, determinada pelo projeto dos equipamentos. A capacidade nominal deve ser definida na unidade de milhões de litros de combustível líquido produzidos por ano, o que agrega a produção somada de SAF, diesel verde e bioNafta. d. Fator de utilização (FUT): consiste na produção efetiva média da planta em seu ciclo de vida, considerando paradas para manutenção e outras paradas operacionais. O FUT deve ser definido como uma porcentagem da capacidade nominal da planta. Caso não se conheça o valor de FUT, recomenda-se a utilização do fator default de 90%. Uma vez definidos os 4 parâmetros operacionais, a ferramenta executa o cálculo do MSP. A seguir, são detalhados os métodos utilizados em cada etapa do cálculo.
9 Sigla do inglês para “Minimum selling price”
13
3.2. Custos de capital totais (CAPEX)
Para a estimativa dos custos de capital da planta, foram desenvolvidas correlações entre
o CAPEX total requerido pelas tecnologias HEFA e ATJ e a capacidade nominal das plantas,
incluindo a produção somada de SAF, diesel verde e bioNafta. As correlações foram obtidas
utilizando dados anonimizados fornecidos pelo BNDES
10
referentes a solicitações de
financiamento para projetos no Brasil, oriundos da chamada pública “Planos de Negócios para
investimentos em combustíveis de aviação e navegação de baixo carbono”, de 2024. Dessa
maneira, se baseiam em projetos reais planejados para construção no Brasil.
No caso da tecnologia HEFA, foram utilizados dados provenientes de 7 projetos de larga
escala submetidos à chamada pública, incluindo capacidades nominais variando entre 50
milhões de litros por ano e 1 bilhão de litros por ano. Já para a tecnologia ATJ, outros 7 projetos
submetidos à chamada foram utilizados, com capacidades nominais variando entre 64 milhões
de litros por ano e 950 milhões de litros por ano. Recomenda-se, assim, que a ferramenta seja
utilizada dentro desses limites de capacidade, sob risco de erros na estimativa de CAPEX caso
contrário.
Os dados foram correlacionados utilizando fatores de potência, de acordo com as
metodologias mais usuais aplicadas para representar economias de escala em plantas
industriais. A forma geral da correlação é exemplificada na equação abaixo:
퐶퐴푃퐸푋= 퐶
푟
∗푆
푓
Onde Cr e f são parâmetros ajustáveis na regressão e S representa a capacidade nominal
da planta.
Por se tratar de um processo com maturidade tecnológica mais elevada, a rota HEFA
apresentou menor dispersão para os dados considerados na regressão. Por esse motivo, espera-
se que a acurácia da correlação obtida seja maior para HEFA do que para ATJ. Baseando-se no
Sistema de Classificação para Estimativas de Custo da Associação para Avanço da Engenharia
de Custos (AACE, 2016) e nos dados utilizados, foram estimadas as faixas de erro prováveis das
correlações obtidas. Assim, foram disponibilizados para o usuário três casos para cálculo de
CAPEX na ferramenta: caso base (default), caso otimista e caso pessimista
11
, conforme
especificado na Tabela 4. As Figura 9 e Figura 10 apresentam as correlações de CAPEX obtidas.
Tabela 4 – Correlações utilizadas para estimativa do CAPEX. Cenário HEFA ATJ Cenário base 퐶퐴푃퐸푋= 22,928∗푆 0,7950
퐶퐴푃퐸푋= 83,434∗푆 0,6294
Cenário otimista 퐶퐴푃퐸푋= 0,7∗퐶퐴푃퐸푋 푏푎푠푒 퐶퐴푃퐸푋= 0,6∗퐶퐴푃퐸푋 푏푎푠푒
Cenário pessimista 퐶퐴푃퐸푋= 1,4∗퐶퐴푃퐸푋 푏푎푠푒 퐶퐴푃퐸푋= 1,6∗퐶퐴푃퐸푋 푏푎푠푒
Fonte: Elaboração própria
10 Solicitou-se ao BNDES detalhamento sobre os projetos submetidos à proposta, os quais foram fornecidos de maneira anonimizada, restringindo-se o acesso somente aos valores de CAPEX reportados. 11 No caso otimista, usa-se o menor CAPEX com incremento da capacidade nominal. No pessimista, ao contrário.
14
Figura 9 - Correlação entre o CAPEX e a Capacidade Nominal (inclui produção de SAF, diesel verde e
bioNafta) para plantas HEFA.
Fonte: Elaboração própria
Nota: A linha sólida corresponde ao caso default utilizado na ferramenta, enquanto as linhas tracejadas indicam os valores adotados nas estimativas otimista e pessimista.
Figura 10 - Correlação entre o CAPEX e a Capacidade Nominal (inclui produção de SAF, diesel verde e
bioNafta) para plantas ATJ.
Fonte: Elaboração própria
Nota: A linha sólida corresponde ao caso default utilizado na ferramenta, enquanto as linhas tracejadas indicam os valores
adotados nas estimativas otimista e pessimista.
15
3.3. Custos de operação anuais (OPEX)
Os custos de operação da planta são divididos entre custos fixos e custos variáveis.
Os custos fixos de operação são aqueles que independem da quantidade de combustível
efetivamente produzida. Nesta ferramenta, os custos fixos são divididos em três categorias:
custos de manutenção, custos de mão de obra e outros custos fixos. A magnitude desses custos
é consequência direta do tamanho da planta simulada. Por esse motivo, os custos fixos de
operação (em R$/ano) são estimados como percentuais do CAPEX total do empreendimento,
conforme apresentado na Tabela 5.
Tabela 5 – Valores considerados para estimativa dos custos fixos de operação.
Categoria de custo Percentual do CAPEX
Custos de mão de obra 2,0 %
Custos de manutenção 3,0 %
Seguros, impostos e outros custos fixos 1,5 %
Fonte: Elaboração própria com base nos valores observados nos artigos revisados e na expertise interna da EPE.
Os custos variáveis de operação, por sua vez, são aqueles que dependem da quantidade
de combustível efetivamente produzida. Em suma, correspondem aos custos associados aos
insumos e utilidades consumidos pela planta, previamente especificados no inventário de
entradas e saídas do empreendimento (Tabela 3). Para o cálculo do OPEX variável, é necessário
que o usuário defina o preço desses insumos. A ferramenta contém valores default preenchidos
para eles, conforme especificado na Tabela 6. Porém, recomenda-se fortemente que o usuário
atualize tais valores com preços próprios, especialmente para o custo da matéria-prima (etanol
ou óleo de soja), insumos altamente impactantes no preço mínimo de viabilidade do SAF e cujo
preço pode variar significativamente por serem commodities. Ressalta-se que os preços
utilizados representam os valores pagos por consumidores industriais.
16
Tabela 6 – Valores default utilizados para custos de insumos e utilidades e para custo de tratamento de água residual. Insumo Valor default Unidade Fonte Óleo de soja R$ 4,86 R$ / litro Média dos preços entre 2023 e 2025 no porto de Paranaguá (Abiove - comunicação pessoal) Sebo bovino R$ 5,16 R$ / litro Média dos preços entre 2023 e 2025 entregue em São Paulo (ABISA) Etanol R$ 2,47 R$ / litro Média dos preços na usina entre 2023 e 2025 (CEPEA ESALQ USP) Hidrogênio R$ 10,57 R$ / kg Custo do hidrogênio fóssil produzido in situ (PUC Rio e CNI – comunicação pessoal) Eletricidade R$ 0,13 R$ / kWh Média dos preços no mercado livre entre 2023 e 2025 (CCEE) *
Gás natural R$ 5,03 R$ / kg Média dos preços ao consumidor industrial entre 2023 e agosto de 2025 (MME) Cavaco de madeira R$ 0,47 R$ / kg Média dos preços entre janeiro de 2024 e janeiro de 2025 (IFAG) Catalisadores (HEFA) **
R$ 1,37 R$ / g Média de valores identificados nos artigos revisados (Tabela 1) Catalisadores (ATJ) **
R$ 0,12 R$ / g Média de valores identificados nos artigos revisados (Tabela 1) Água para resfriamento
R$ 4,09 R$ / m³ Média no Brasil em 2020 (IBGE e ANA) Tratamento de água residual
R$ 8,64 R$ / m³
Sinnott & Towler (2020)
Fonte: Elaboração própria
*Nota 1: A formação do custo de eletricidade para o consumidor industrial é complexa e depende de fatores altamente específicos
do negócio. O preço avaliado neste documento deve ser entendido como mera referência de ordem de grandeza.
**Nota 2: O preço considerado é o preço médio dos catalisadores utilizados no processo, incluindo os diferentes tipos de
catalisador, que não foram individualmente discriminados.
***Nota 3: Valores não-editáveis na ferramenta.
3.4. Receitas Anuais
De maneira similar ao cálculo dos custos de operação variáveis, as receitas por litro de
combustível líquido produzido são calculadas a partir da determinação do valor de venda dos
diferentes produtos gerados, de acordo com o inventário de entradas e saídas do
empreendimento (Tabela 3). Os valores default considerados na ferramenta, passíveis de
modificação pelo usuário, estão listados na Tabela 7. Especificamente, o preço de venda de SAF
não é definido pelo usuário, por consistir precisamente no preço mínimo de viabilidade calculado
pela ferramenta, como descrito na seção seguinte.
Os valores default utilizados na ferramenta consideram a paridade do preço de venda dos
coprodutos da planta com os equivalentes fósseis. Ou seja, por default a ferramenta aloca todo
o ônus econômico da planta produtiva no produto principal (SAF). Se trata de uma premissa
conservadora que assume que o mercado de combustíveis de aviação seria o único disposto a
17
remunerar a redução de emissões ocasionada pelo biorrefino. Caso o usuário deseje modificar tal premissa, basta modificar o valor de venda dos coprodutos de forma a adicionar um prêmio em relação aos equivalentes fósseis. Tabela 7 – Valores default utilizados para preços de venda dos coprodutos. Insumo Valor default Unidade Fonte Diesel Verde R$ 3,84 R$ / litro Paridade com o preço médio do equivalente fóssil na refinaria entre 2023 e 2025 (EPE com base em dados da ANP) bioNafta R$ 2,90 R$ / litro bioGL R$ 2,79 R$ / kg Fonte: Elaboração própria
3.5. Fluxo de caixa descontado pela taxa de custo médio de capital
Uma vez definidos os valores de CAPEX, OPEX e receitas, o fluxo financeiro (despesas e
receitas) do empreendimento é descrito ano a ano para todo o período de vida esperado da
planta. O preço mínimo de viabilidade é então calculado através do método de fluxo de caixa
descontado pela taxa de custo médio de capital.
A Tabela 8 apresenta os parâmetros de fluxo de caixa modificáveis na ferramenta e os
respectivos valores default utilizados, obtidos a partir da revisão de literatura e expertise técnica
dos funcionários da EPE. O usuário possui a liberdade de alterar tais parâmetros como lhe convir,
o que permite avaliar situações particulares ou a influência de cada variável no preço mínimo de
viabilidade de SAF calculado.
Tabela 8 – Parâmetros de fluxo de caixa considerados e valores default estabelecidos para cada um.
Parâmetro Valor default Unidade
Tempo de operação da planta 20 anos
Tempo de construção da planta 3 anos
Tempo de atraso na construção 0 meses adicionais
Cronograma financeiro da construção 8 % / 60 % / 32 % % do CAPEX por ano
Tempo de start-up da planta 6 meses
Receita durante o start-up 75 % % da receita de operação
Custo variável durante start-up 75 % % do OPEX variável de operação
Custo fixo durante start-up 100 % % do OPEX fixo de operação
Porcentagem de CAPEX financiado 60 % % do CAPEX
Porcentagem de CAPEX por equity 40 % % do CAPEX
Taxa de juros do financiamento
*
12,36 % % ao ano
Taxa de desconto do equity
**
15,00 % % ao ano
Fonte: Elaboração própria
*Nota 1: Taxa de juros calculada considerando a linha de financiamento BNDES Finem – Meio Ambiente – Biorrefinarias, supondo
inflação de 3% a.a.
**Nota 2: A taxa de desconto do equity equivale ao custo de capital próprio. A estimativa utilizada neste documento tem como
base a taxa SELIC durante o ano de 2025.
18
O objetivo do cálculo é determinar o preço de SAF necessário para que o valor presente líquido (VPL) do empreendimento seja igual a zero (ou seja, que o empreendimento se pague em termos de OPEX e CAPEX). A cada ano, são computados os gastos totais e as receitas totais da planta, gerando um valor de fluxo de caixa livre (calculado subtraindo a despesa total da receita total). Esses valores são então convertidos em valor presente, e o VPL é calculado a partir da seguinte equação: 푉푃퐿=∑ 퐹퐶 푡 (1+푊퐴퐶퐶) 푡 푛 푡=1
Onde n corresponde ao tempo de vida total do empreendimento, FC t corresponde ao valor do fluxo de caixa livre do ano t, e WACC se refere à taxa de custo médio de capital 12 . A WACC é calculada a partir da seguinte equação: 푊퐴퐶퐶= 퐶퐴푃퐸푋 푑 퐶퐴푃퐸푋 푅 푑 ( 1−퐼 ) + 퐶퐴푃퐸푋 푒 퐶퐴푃퐸푋 푅 푒
Onde os índices d e e se referem, respectivamente, ao capital de dívida (financiado) e ao
capital de equity, R corresponde à taxa de juros ou de desconto considerada para cada capital e
I corresponde à porcentagem total aplicada de tributos sobre o lucro da planta, descontados a
depreciação, os juros e os tributos sobre faturamento bruto.
O cálculo realizado no simulador determina numericamente o valor do preço de venda de
SAF que zera o VPL do empreendimento. Em outras palavras, é possível interpretar que o cálculo
determina o preço de venda necessário para que a taxa interna de retorno (TIR) do
empreendimento se iguale à WACC.
O tempo de vida total da planta é definido como a soma do tempo de construção e de
operação. O ciclo de vida de uma planta de produção de SAF é dividido em três grandes
momentos: Construção, Start-up e Operação.
No período de construção, considera-se somente despesas relativas ao CAPEX, sem
receitas associadas. As despesas são distribuídas a cada ano de construção de acordo com o
cronograma definido pelo usuário. É também possível definir um tempo de atraso da construção
para avaliar o impacto desse parâmetro no MSP. Nesse caso, o atraso é adicionado como um
período posterior à construção no qual não são consideradas despesas nem receitas.
O período de start-up consiste no primeiro ano de operação da planta. O tempo de start-
up corresponde ao início da operação, no qual a produção total costuma ser menor que a
capacidade total devido à necessidade de aprendizagem operacional. As despesas de OPEX
variável e OPEX fixo e as receitas associadas ao período de start-up são definidas a partir de
porcentagens definidas pelo usuário, que se referem às despesas e receitas da planta operando
em condições plenas.
12 Sigla do inglês para “Weighted average capital cost”. De maneira conceitual, a WACC corresponde à taxa de desconto equivalente aplicada sobre os valores de fluxo de caixa que permite o pagamento da dívida financiada (já considerando o abatimento dos juros no cálculo do imposto de renda pago pelo empreendimento) e a remuneração requerida pelo investidor de equity.
19
O período de operação corresponde aos anos subsequentes até o fim de vida do
empreendimento. Nesses anos, as despesas de OPEX variável e fixo e as receitas são calculadas
de acordo com a produção efetiva da planta. Nesse período, é também necessário calcular as
despesas relativas aos tributos pagos pela unidade produtiva. No Brasil, há dois grupos de
tributos que devem ser considerados: tributos incidentes sobre o faturamento total da planta (PIS
e COFINS
13
) e tributos incidentes sobre o lucro líquido do empreendimento (IRPJ e CSLL
14
). O
valor de pagamento do PIS e COFINS representa 9,25 % das receitas totais e é calculado
diretamente. Já para cálculo do IRPJ e CSLL, calcula-se inicialmente os lucros antes de juros,
impostos, depreciação e amortização (EBITDA
15
) subtraindo as despesas de OPEX das receitas
totais. Durante os 10 primeiros anos de operação, são descontados desse valor parcelas
referentes à depreciação, que é calculada usando o método linear. Além disso, desconta-se
também os valores referentes ao PIS e COFINS do EBITDA. Sobre o valor resultante, é então
aplicado o percentual fixo de 34 % para cálculo do IRPJ e CSLL
16
.
Finalmente, o valor residual de venda para a infraestrutura, que corresponde ao valor
esperado de revenda dos equipamentos ao final da vida útil da planta, foi considerado zero nesta
ferramenta.
3.6. Prêmio ao produtor
Após a determinação do MSP, a ferramenta permite ao usuário inserir um valor
correspondente ao prêmio ao produtor, informado como uma porcentagem do MSP. Tal valor
aumenta o preço de venda do SAF pela porcentagem informada. A ferramenta, então, atualiza o
fluxo de caixa descontado para considerar esse parâmetro, o que resultará em um VPL positivo
para o empreendimento. Esse valor representa a totalidade do ganho econômico previsto para o
produtor no cenário simulado.
Para considerar a possiblidade de modelos de negócio multimercado, o usuário deve
definir o prêmio ao produtor em cada mercado visado (CORSIA, ProBioQAV e Outros Mercados –
SAF). Isso permite analisar cenários em que diferentes atores estejam mais ou menos dispostos
a remunerar ganhos de emissões.
13 PIS: Programa de Integração Social; COFINS: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social. 14 IRPJ: Imposto de Renda de Pessoa Jurídica; CSLL: Contribuição Social sobre Lucro Líquido. 15 Sigla do inglês para “Earnings before interests, taxes, depreciation and amortization”. 16 Na realidade, os juros referentes à parcela financiada do empreendimento também são subtraídos do EBITDA para calcular o valor base de incidência do IRPJ e CSLL. No método aplicado nesta ferramenta, entretanto, o desconto dos juros está implícito no valor da taxa de desconto aplicada (WACC). Por esse motivo, esses tributos são calculados desconsiderando o abatimento de juros.
20
- Cálculo da intensidade de carbono
O mercado emergente de SAF se organiza a partir dos esforços internacionais para
redução das emissões de GEE do segmento aéreo. Por esse motivo, diversas políticas e
programas que fomentam a promoção desses combustíveis se baseiam em mandatos ou
incentivos que têm na intensidade de carbono (IC) um parâmetro central. É o caso, por exemplo,
do CORSIA, no âmbito internacional, e do ProBioQAV, no âmbito nacional. Em ambos os
programas, são determinados mandatos de redução de emissões ao invés de mandatos
volumétricos, como tradicionalmente se organiza o mercado de outros biocombustíveis. Por esse
motivo, combustíveis de aviação com menor intensidade de carbono tendem a possuir vantagens
competitivas, uma vez que geram a mesma redução de emissões com volumes menores.
A intensidade de carbono de um combustível é uma medida da quantidade de emissões
de GEE associadas à sua produção, transporte e uso final. Na maioria dos programas e políticas,
ela é avaliada na unidade de gramas de CO
2
equivalentes por megajoule (gCO
2
eq/MJ). Seu
cálculo se baseia em metodologias de análise de ciclo de vida (ACV), que estimam o impacto das
emissões de gases de efeito estufa emitidos em toda a cadeia de valor do combustível.
Diversas abordagens de ACV têm sido propostas para estabelecer a IC do SAF produzido
a partir das rotas HEFA e ATJ. Um ponto especialmente sensível do cálculo consiste na inclusão
ou não da mudança de uso indireto da terra (iLUC
17
), sendo esse parâmetro incorporado em
alguns programas e não incorporado em outros. Diferenças metodológicas incorrem em valores
significativamente distintos de IC em muitos casos, o que pode impactar diretamente a
competitividade e viabilidade econômica do combustível. Por isso, abordagens qualitativas de
nível de risco de iLUC já estão sendo implementadas como alternativa aos modelos que tentam
quantificar esse impacto.
Nesta ferramenta, é permitido ao usuário escolher entre métodos distintos para cálculo
da IC do combustível produzido, de forma a avaliar a sua viabilidade em diferentes mercados e
condições de certificação. É também permitido ao usuário informar um valor próprio de
intensidade de carbono para os combustíveis, no caso em que se conheça esse valor. Como o
valor de intensidade de carbono é alocado energeticamente, o mesmo valor (em gCO
2
eq/MJ) será
considerado para todos os coprodutos no caso de seleção de uso de valor próprio.
Para considerar a possibilidade de modelos de negócio multimercado, o usuário pode especificar o método de cálculo adotado em três diferentes mercados de venda simultâneos: CORSIA, ProBioQAV e Outros Mercados – SAF.
17 Sigla do inglês para “Indirect land use change”. O conceito de iLUC está associado à ideia de que a utilização de matérias-primas agrícolas como soja, cana e milho para fins energéticos levaria à diminuição da oferta de produtos alimentares associados, com risco de compensação através de remoção de vegetação nativa para plantação em outra localidade geográfica. Entretanto, os impactos efetivos desses mecanismos indiretos não são diretamente aferíveis, o que faz com que o cálculo das emissões de iLUC se dê usualmente através de modelagens econômicas altamente sensíveis às premissas iniciais. Por esse motivo, a prática de adotar valores numéricos para representar o impacto do iLUC na intensidade de carbono de combustíveis é questionável. Assim, a adoção do iLUC na metodologia de determinação da IC não é consensual, havendo programas que o fazem e outros que não.
21
4.1. Métodos de cálculo
Para avaliar a viabilidade da produção de SAF no Brasil, é necessário separar sua
aplicação no mercado internacional, condicionado pelas regras estabelecidas pelo CORSIA, e no
mercado nacional, condicionado pelas regras que serão estabelecidas para o ProBioQAV
18
.
No CORSIA, a intensidade de carbono de um combustível é determinada a partir de uma
estrutura certificatória. Quaisquer produtores de combustível necessitam se certificar cumprindo
os requisitos básicos do programa para adesão.
A partir disso, todos os produtores estão automaticamente submetidos à valores pré-
estabelecidos de IC que dependem da rota produtiva utilizada. Esses valores, nomeados “valores
default”, são oriundos de análises de ciclo de vida baseadas em premissas conservadoras de
condições de produção, de forma que usualmente penalizam a intensidade de carbono de
combustíveis que adotem práticas produtivas de menor impacto. Por esse motivo, os produtores
possuem a opção de certificar seu processo produtivo em termos de consumos reais de insumos
e utilidades. Tal certificação abrange aspectos que vão desde a fase agrícola até a industrial,
comprovando intensidades de carbono reais aos combustíveis gerados. Nesse caso, os valores
utilizados são nomeados “valores reais” (do inglês actual value) e substituem os “valores default”
pré-estabelecidos
No âmbito do CORSIA, também são estabelecidos valores de iLUC para diferentes
matérias-primas, que se somam aos valores de IC determinados em ACV para que se obtenha o
valor final. As certificações de ciclo de vida não modificam o valor de iLUC. Porém, produtores
podem também optar por certificar a matéria-prima como de “baixo risco de mudança do uso da
terra”, removendo os valores de iLUC da intensidade de carbono de seu combustível.
O método de cálculo do ProBioQAV, por sua vez, ainda não está estabelecido, mas é
provável que se baseie fortemente na metodologia estabelecida pela Política Nacional dos
Biocombustíveis (RenovaBio). Nesse caso, a metodologia se baseia diretamente nos valores reais
certificados pelo produtor
19
. Ademais, o RenovaBio não inclui valores de iLUC.
De forma a representar essas diversas condições de mercado, diferentes metodologias de
cálculo de IC foram implementadas nesta ferramenta.
O cálculo da IC final do combustível é realizado em duas etapas: o cálculo do valor de IC
correspondente ao ACV do combustível e a inclusão de valores de iLUC quando necessário. Para
o cálculo de ACV, foram estabelecidos três métodos de cálculo possíveis, conforme apresentado
na Tabela 9. A ferramenta seleciona o método de cálculo ACV e adiciona ou não os valores de
iLUC de acordo com o caso definido pelo usuário, conforme apresentado na Tabela 10. Por
default, a ferramenta pré-seleciona o método “Valores Médios Brasil” sem a inclusão de iLUC
para o programa ProBioQAV e o método “CORSIA default” com a inclusão de iLUC para o programa
CORSIA.
18 Até a publicação desta nota técnica, o detalhamento metodológico de cálculo de IC para o ProBioQAV ainda está em aberto. 19 De acordo com a minuta do decreto disponibilizada na consulta pública MME n° 204/2025, o produtor que obtiver certificação no âmbito dos programas da OACI poderá validá-la para uso no ProBioQAV.
22
Na metodologia ACV “CORSIA default”, adota-se os valores default estabelecidos no programa para as rotas HEFA e ATJ com matérias-primas brasileiras. Nas metodologias “valores médios Brasil”, o inventário de entradas e saídas (Tabela 3) é utilizado para cálculo da IC média efetiva dos combustíveis produzidos no Brasil. Os valores de carga ambiental de cada insumo são apresentados na Tabela 11, e uma alocação energética é estabelecida para cada produto, de forma que a intensidade de carbono é a mesma para SAF, diesel verde, bioNafta e bioGL. Por fim, a intensidade de carbono referência dos equivalentes fósseis é apresentada na Tabela 12. Ela é utilizada para o cálculo do custo de redução das emissões associada a cada combustível.
Tabela 9 - Métodos implementados para cálculo de IC do ACV do SAF.
Método Metodologia
CORSIA default
Utiliza os valores default mais recentes (junho de 2025) (ICAO, 2025).
As rotas implementadas para o ACV na ferramenta são: “2.9: HEFA – soybean oilseed”,
“4.13 ATJ Sugarcane Standalone” e “4.14 ATJ Corn Grain Standalone”.
CORSIA valores
médios Brasil
Utiliza os valores calculados por metodologia ACV baseados em intensidades de carbono
médias brasileiras para etanol ou óleo de soja (somente óleo de soja certificado com
valores de emissão).
ProBioQAV valores
médios Brasil
Utiliza os valores calculados por metodologia ACV baseados em intensidades de carbono
médias brasileiras para etanol ou óleo de soja (inclui óleo de soja certificado com valores
de emissão e não certificado, sobre o qual são aplicados valores de IC penalizados).
Fonte: Elaboração própria
Tabela 10 - Métodos implementados para cálculo de IC final de SAF de acordo com o mercado simulado. Mercado Método ACV iLUC* Caso simulado CORSIA (1) CORSIA default CORSIA default Aderência ao CORSIA sem certificações adicionais. (2) CORSIA default Não incluído Aderência ao CORSIA com certificação “low LUC risk”. (3) CORSIA valores médios Brasil CORSIA default Aderência ao CORSIA, utilizando valores médios Brasil para representar “valores reais”. (4) CORSIA valores médios Brasil Não incluído Aderência ao CORSIA, utilizando valores médios Brasil para representar “valores reais” e com certificação “low LUC risk”. ProBioQAV (5) ProBioQAV valores médios Brasil Não incluído Aderência ao ProBioQAV utilizando valores médios Brasil. Fonte: Elaboração própria *Nota: para o valor de iLUC, foram utilizadas as seguintes matérias-primas, de acordo com os valores mais recentes reportados pela OACI: “8.2 HEFA: Brazil Soybean oilseed”, “10.15 ATJ: Brazil Sugarcane Standalone” e “10.29 ATJ: Brazil Corn Grain Sequential Cropping”.
23
Tabela 11 – Valores utilizados para carga ambiental das entradas do volume de controle para o método de cálculo “ACV valores médios Brasil” Insumo Valor Unidade Fonte Óleo de soja (com certificado de emissão) 0,573 kg CO 2eq / kg óleo EPE – cálculos realizados na RenovaCalc com valores médios brasileiros Óleo de soja (sem certificado de emissão) 1,324 kg CO 2eq / kg óleo EPE – cálculos realizados na RenovaCalc com valores médios brasileiros Sebo bovino 0,043 kg CO 2eq / kg sebo EPE – cálculos realizados na RenovaCalc com valores médios brasileiros Etanol Cana de Açúcar 0,02132 kg CO 2eq / MJ EPE – cálculos realizados na RenovaCalc com valores médios brasileiros Etanol Milho 2ª safra 0,02034 kg CO 2eq / MJ EPE – cálculos realizados na RenovaCalc com valores médios brasileiros Hidrogênio fóssil 10,7 kg CO 2eq / kg H 2
Ecoinvent: “Hydrogen Production SMR – Rest of the World” Eletricidade Brasil 59,9 kg CO 2eq / MWh (EPE, 2025b) Calor (Gás Natural) 0,0757 kg CO 2eq / MJ Ecoinvent: “Heat Production Industrial Furnace – Rest of the World” Calor (Cavaco de Madeira) 0,00935 kg CO 2eq / MJ Ecoinvent: “Heat Production at Furnace Hardwood Chips from forest” Catalisadores (HEFA) 0,1324 kg CO 2eq / g * Catalisadores (ATJ) 0,0034 kg CO 2eq / g ** Água de resfriamento 0,0014 kg CO 2eq / kg make-up
Fonte: Elaboração própria *Nota 1: para catalisadores HEFA, considerou-se catalisadores de Níquel-Molibdênio para a etapa de hidrodesoxigenação e catalisadores de Platina para o craqueamento. Como referência, utilizou-se valores do Ecoinvent para: “Aluminum Oxide South America”, “Market for Nickel – Global”, “Market for Molibdenium – Global” e “Market for Platinum – Global” **Nota 2: para catalisadores ATJ, considerou-se o catalisador médio sendo composto por Niquel. Utilizou-se valores do Ecoinvent para: “Aluminum Oxide South America” e “Market for Nickel – Global” ***Nota 3: para a água de resfriamento, considera-se o valor médio requerido de eletricidade para circulação da água de make- up, baseado em Li & Flynn (2021) e Schulze et al. (2019).
Tabela 12 – Intensidades de carbono dos equivalentes fósseis para os produtos. Combustível fóssil IC (g CO 2eq / MJ) Fonte Querosene de Aviação 89,0 Valor adotado no CORSIA Óleo Diesel 86,5 Valor adotado no Renovabio Nafta 87,4 Valor adotado no Renovabio para gasolina GLP 76,0 WLPGA & LPE Exceptional Energy (2023) Fonte: Elaboração própria
24
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Anexo A – Propriedades físico-químicas consideradas para conversões de unidades Propriedade Unidade Substância Valor Fonte Densidade kg/l Óleo de Soja 0,9216 Inmetro Sebo bovino 0,905 Campestre QAV 0,799 ANP Etanol hidratado 0,809 ANP Diesel 0,840 ANP Nafta 0,702 ANP GLP 0,552 ANP Gás natural úmido 7,4*10 -4 ANP Poder calorífico inferior MJ/kg QAV 43,51 ANP Etanol hidratado 26,36 ANP Diesel 42,26 ANP Nafta 44,48 ANP GLP 46,45 ANP Gás natural úmido 41,55 ANP Cavaco de madeira 16,12 Borges (2015)