Potencial dos
Recursos Energéticos
RiodeJaneiro,2026
MinistrodeEstado
AlexandreSilveiradeOliveira
SecretárioExecutivo
GustavoCerqueiraAtaide
SecretárioNacionaldeEnergiaElétrica
JoãoDanieldeAndradeCascalho
SecretáriaNacionaldeGeologia,MineraçãoeTransformaçãoMineral
AnaPaulaLimaVieiraBittencourt
SecretárioNacionaldePetróleo,GásNaturaleBiocombustíveis
RenatoCabralDiasDutra
SecretáriaNacionaldeTransiçãoEnergéticaePlanejamentoSubstituta
LorenaMeloSilvaPerim
Presidente
ThiagoGuilhermeFerreiraPrado
DiretordeEstudosEconômico-EnergéticoseAmbientais
ThiagoIvanoskiTeixeira
DiretordeEstudosdeEnergiaElétrica
ReinaldodaCruzGarcia
DiretoradeEstudosdoPetróleo,GáseBiocombustíveis
HeloisaBorgesBastosEsteves
DiretordeGestãoCorporativa
CarlosEduardoCabralCarvalho
FICHA TÉCNICA
www.mme.gov.brwww.epe.gov.br
EQUIPE TÉCNICA
EPE
Coordenação Geral
Thiago Guilherme Ferreira Prado (EPE)
Gustavo Cerqueira Ataide (MME) até fev/2026
Lorena Melo Silva (MME) desde fev/2026
Coordenação Executiva
Gustavo Naciff de Andrade (EPE)
Leandro Pereira de Andrade (MME)
Patricia Costa Gonzalez de Nunes (EPE)
Coordenação Técnica
Caio Monteiro Leocádio (EPE)
Gabriel Konzen (EPE)
Gustavo Pires da Ponte (EPE)
Hermani de Moraes Vieira (EPE)
Luciano Basto Oliveira (EPE)
Rachel Martins Henriques (EPE)
Regina Freitas Fernandes (EPE)
Adriana Queiroz Ramos
Amanda Vinhoza
Ana Dantas Mendez de Mattos
André Makishi
André Viola Barreto
Angela Oliveira da Costa
Bernardo Folly de Aguiar
Bernardo Regis Guimarães de Oliveira
Bruna Silveira Guimarães
Bruno Faria Cunha
Carla Lopes Achão
Charles Egberto G. V. Vieira de Mello
Clayton Borges da Silva
Cristiane Moutinho Coelho
Daniel Kühner Coelho
Danily Andrade Veloso
Deise dos Santos Trindade Ribeiro
Diego Pinheiro de Almeida
Elisângela Medeiros de Almeida
Erick Mateus Silva de Oliveira
Euler João Geraldo da Silva
Filipe de Pádua Fernandes Silva
Guilherme de Paula Salgado
Gustavo Fernando Schmidt
Gustavo J. Sampaio
Gustavo Miranda de Magalhães
Isis de Oliveira Fernandes
João Mauricio Julião de Souza Lapa
Leonardo de Sousa Lopes
Leonardo Sanches Lima
Leônidas Bially Olegario dos Santos
Leyla Adriana Ferreira da Silva
Marcos Frederico F. de Souza
Maria das Graças de Freitas Gomes
Marina Damião Besteti Ribeiro
Mauro Rezende Pinto
Nathalia Oliveira de Castro
Péricles de Abreu Brumati
Rafael Barros Araujo
Rafael Freitas Funcia Lemme
Rafael Pinho Furtado
Roberta de Albuquerque Cardoso
Rodrigo Vellardo Guimarães
Ronaldo Antonio de Souza
Silvana Andreoli Espig
Thais Accioly Araujo
Verônica Souza da Mota Gomes
Victor Hugo Trocate da Silva
4
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
AVISOS
Esta publicação contém projeções acerca de eventos futuros que refletem a visão da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) no âmbito do Plano
Nacional de Energia 2055 (PNE 2055). Tais projeções envolvem uma ampla gama de riscos e incertezas conhecidos e desconhecidos e, portanto,
os dados, as análises e quaisquer informações contidas neste documento não são garantia de realizações e acontecimentos futuros.
Este documento possui caráter informativo, sendo destinado a subsidiar o planejamento do setor energético nacional.
A EPE se exime de responsabilidade por quaisquer ações e tomadas de decisão que possam ser realizadas por qualquer pessoa física ou jurídica
com base nas informações contidas neste documento.
VersãoDataDescrição
v111/02/2026Publicação inicial.
v205/05/2026Revisão do potencial energético do etanol de milho.
Controle de versões
5
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
VALOR PÚBLICO
Os estudos do Plano Nacional de Energia (PNE) orientam a formulação de políticas públicas, ajudam a guiar as decisões de diversas partes
interessadas, como governos, empresas e a sociedade civil, e contribuem para a segurança energética do País.
A avaliação dos recursos energéticos aproveitáveis é etapa inicial e fundamental para a elaboração do PNE. O potencial mapeado é um insumo
para os estudos subsequentes de oferta de eletricidade e de combustíveis, que deverão orientar a estratégia de expansão da oferta de energia
brasileira no longo prazo.
Nesse contexto, o valor público deste documento está na sua capacidade de informar e orientar a tomada de decisão no setor energético,
promover transparência, apoiar o planejamento de investimentos e o planejamento energético de longo prazo e, em última instância, beneficiar a
sociedade brasileira ao fomentar um sistema energético seguro e eficiente.
6
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
ÍNDICE
Potencial energético consolidado .....................................
1
8
Referências bibliográficas ..............................................................
50
Apresentação ....................................................................................
7
Agradecimentos ................................................................................
54
Recursos hídricos....................................................................
2
11
Energia eólica...........................................................................
3
15
Biomassa...................................................................................
4
19
Energia solar.............................................................................
5
27
Energia oceânica.....................................................................
6
32
Hidrogênio natural ..................................................................
7
34
Energia geotérmica .................................................................
8
36
Petróleo e gás natural ............................................................
9
39
Carvão mineral ........................................................................
10
45
Urânio .........................................................................................
11
47
7
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
APRESENTAÇÃO
A EPE tem entre suas principais atribuições o
desenvolvimento de planos de médio e longo prazo
para o setor energético nacional, como o Plano
Decenal de Expansão de Energia (PDE) e o Plano
Nacional de Energia (PNE).
Por meio de uma governança inovadora, que envolve dois
grupos de trabalho, um dedicado à elaboração dos
cenários energéticos de longo prazo (GT Cenários) e outro
à coordenação da representação e otimização das
cadeias energéticas no modelo energético integrado (GT
Modelos), a EPE tem liderado o processo de elaboração
do novo Plano Nacional de Energia 2055 (PNE 2055). A
publicação do PNE 2055 está em conformidade com a
periodicidade definida na Portaria MME n. 6, de 7 de
janeiro de 2020.
Uma etapa inicial e fundamental para a elaboração do
PNE consiste na avaliação dos recursos energéticos
aproveitáveis no País ao longo do horizonte até 2055.
Assim, este estudo é um insumo para os estudos
subsequentes de oferta de eletricidade e de combustíveis,
que deverão orientar a estratégia de expansão da oferta
de energia brasileira no longo prazo.
Como o potencial foi identificado?
O critério aplicado para todas as fontes foi a identificação
da disponibilidade física, considerando aspectos
ambientais e sociais. Para tanto, foram utilizadas as
bases de dados oficiais e, em sua ausência,
referências. Estas foram utilizadas em sistemas de
informação geográfica e, quando necessário, em modelos
especialistas para estimar o inventário de cada fonte.
As análises priorizaram os pontos de vista técnico-
econômico e socioambiental, quando aplicado, para
avaliar a disponibilidade de fontes energéticas no País ao
longo do horizonte de planejamento até 2055. As
fronteiras máximas de produção nacional de cada fonte
energética, definidas neste estudo, abastecem os
modelos computacionais utilizados nos estudos de
planejamento.
Cabe ressaltar que o potencial quantificado considera o
conhecimento atual das reservas e tecnologias de
conversão disponíveis. Adicionalmente, alguns recursos
não tradicionais no Brasil, como a energia geotérmica,
não foram quantificados. Assim, novos recursos,
descobertas e avanços industriais podem elevar o
potencial aqui apresentado.
8
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Potencial energético consolidado
“A terra sobranceia o oceano, dominante, do fastígio das escarpas; e
quem a alcança, como quem vinga a rampa de um majestoso palco,
justifica todos os exageros descritivos (...) que fazem deste país
região privilegiada, onde a natureza armou a sua mais portentosa
oficina.” – Euclides da Cunha. Os Sertões, 1902.
1
9
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Potencial energético consolidado
Há disponibilidade para atender ao crescimento esperado da demanda de energia no
horizonte de 2055 com folga expressiva, desde que o potencial seja bem aproveitado
Recursos não renováveis (Estoque)
Mtep
Petróleo
(12)
7.621
Gás natural
(13)
3.770
Carvão mineral
(14)
7.157
Urânio
(15)
2.302
Subtotal
20.850
Recursos Renováveis (Fluxo)
Mtep / ano
Hidráulica
(1)
75
Eólica onshore
(2)
228
Eólica offshore
(3)
218
Biomassa
(4)
671
Solar FV onshore centralizada
(5)
149
Heliotérmica
(6)
57
Solar FV onshore distribuída
(7)
34
Solar FV em reservatórios
(8)
7
Solar FV offshore
(9)
52
Oceânica
(10)
34
Hidrogênio natural
(11)
52
Subtotal
1.577
Os recursos energéticos nacionais são abundantes. Em 2024, o consumo
final de energia do Brasil foi de 288 milhões de toneladas equivalentes de
petróleo (Mtep) (EPE, 2025). O potencial renovável anual do país é
aproximadamente cinco vezes superior ao consumo anual atual.
Os recursos não renováveis, por sua vez, representam uma reserva
energética significativa: o potencial técnico estimado totaliza 20.850
Mtep. Isso representa um volume cerca de 70 vezes superior ao consumo
energético anual do país.
Dessa forma, a ampla disponibilidade de recursos energéticos nacionais
configura uma vantagem estratégica do Brasil, capaz de suprir qualquer
dos cenários energéticos projetados no âmbito do PNE 2055.
É importante destacar que as premissas são conservadoras. No caso dos
não renováveis, o inventário cobre apenas parte do território, podendo
haver volumes superiores. Para os renováveis, como a solar centralizada,
foram consideradas apenas áreas com alta irradiação, o que também
pode subestimar o potencial real.
Por fim, a avaliação quanto à viabilidade de
aproveitamento desses recursos, com foco em garantir a
segurança do suprimento e a modicidade tarifária, é
aprofundada nos estudos de oferta energética. Esses
estudos, que consideram tanto soluções individuais
quanto combinações de tecnologias (como a
hibridização de fontes), fornecem subsídios essenciais
para a elaboração dos planos de ação do setor
energético.
Notas das Tabelas:
(1) Considera UHEs e PCHs que estão em operação, construção e potencial
hidrelétrico inventariado (ver seção específica).
(2) Potencial a 150m de altura, calculado a partir dos atlas estaduais
disponíveis, com premissas diversas (ver seção específica).
(3) Potencial a 100m de altura, considerando áreas com velocidades médias ≥
7 m/s e profundidade de até 50 m.
(4) Potencial despreza a possibilidade de plantio de 12 milhões de hectares
previstos no Acordo de Paris para servirem como insumo de UTEs, com 194,8
Mtep.
(5) Considera as áreas com faixa de irradiação de 6,0-6,2 kWh/m².dia.
(6) Considera tecnologia cilíndrico parabólico com armazenamento.
(7) Considera 30% das áreas de telhado e fator de capacidade de 21%.
(8) Considera 1% de ocupação de reservatórios artificiais, conforme premissas
de (Padilha, et al., 2022) (ver seção específica)
(9) Considera 1% (Padilha, et al., 2022) das áreas com faixa de irradiação de
6,5-6,8 kWh/m².dia.
(10) Considera ondas e marés. Geração calculada a partir de um fator de
capacidade de 40%.
(11) Considera a densidade gravimétrica de energia do hidrogênio – 143 MJ/kg
(TASHIE-LEWIS et al., 2021).
(12)(13) Inclui os recursos convencionais descobertos e não descobertos.
(14) Considera as reservas totais, uma recuperação média de 77% e poder
calorífico de 3.900 kcal/kg.
(15) Considera as reservas totais e perdas de mineração e de beneficiamento.
Tabela 2: Potencial energético não renovável brasileiro para
expansão
Potencial renovável versus não renovável
Embora o potencial técnico anual das fontes renováveis seja inferior ao
volume total dos estoques fósseis, trata-se de um fluxo contínuo de
energia, disponível de forma indefinida ao longo do tempo. O valor
apresentado representa a quantidade passível de aproveitamento em
um único ano, refletindo a natureza recorrente e sustentável dessas
fontes. Já os recursos não renováveis, mesmo abundantes, são finitos
e exauríveis.
Tabela 1: Potencial energético renovável brasileiro para
expansão
Fonte: Elaboração própria
Fonte: Elaboração própria
10
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Potencial energético consolidado
No entanto, há que se reconhecer os potenciais impactos das mudanças do clima na
oferta de energia
As mudanças do clima trazem desafios relevantes para o
planejamento e para a operação do sistema energético,
principalmente por conta da interdependência de fontes
renováveis com o clima e com os recursos naturais.
Além de impactarem a disponibilidade de recursos,
alterações climáticas como as variações na
temperatura alteram a eficiência de equipamentos e
afetam a demanda
1
. Os eventos climáticos extremos,
por sua vez, podem causar danos às infraestruturas e aos
serviços energéticos.
A geração hidrelétrica tem desafios significativos visto que
é muito influenciada por alterações nos padrões de chuva,
tanto em quantidade, quanto em distribuição sazonal e
geográfica. No caso das eólicas, destacam-se os riscos
de redução da geração em função de ventos severos e
rajadas. Para a geração solar, os principais riscos
associados são a redução da geração em função de
aumento de nebulosidade e de particulados na atmosfera.
Quanto à bioenergia, sabe-se que a seca e o calor
extremo afetam negativamente a disponibilidade de
biomassa. Adicionalmente, alterações nos padrões de
precipitação e temperatura podem afetar os ciclos, a
produtividade e a aptidão agrícola, deslocando ou até
inviabilizando áreas de cultivo.
O aumento repentino na demanda de energia elétrica em
função de ondas de calor também traz desafios
importantes para a operação e planejamento do sistema.
Os sistemas de transmissão e distribuição são
particularmente afetados por ventos severos, descargas
atmosféricas e queimadas, que podem causar impactos
na operação do sistema e interrupções no fornecimento
de energia elétrica. Eventos como chuva extrema e seca
também interferem na logística de abastecimento de
combustíveis. Por fim, o aumento do nível e da
temperatura das águas oceânicas pode impactar as
infraestruturas presentes na zona costeira, sobretudo as
relacionadas ao óleo e gás. Todos esses impactos podem
afetar o acesso da população à energia.
A Figura 1 mostra as tendências climáticas projetadas
para o Brasil classificadas como plausíveis, ou seja, que
já estão ocorrendo e têm alto nível de confiança para
ocorrer no futuro. Destacam-se: o aumento da
temperatura (média, máxima e mínima) e de onda de
calor para todas as regiões do Brasil; o aumento na
magnitude da chuva extrema para as regiões Norte,
Sudeste e Sul; o aumento na frequência e duração de
secas para Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste; o aumento
de vento severo para Norte, Nordeste, Sudeste e Sul; e o
aumento no nível médio do mar para toda a costa
brasileira.
Figura 1: Tendências climáticas para o Brasil
Fonte: Elaboração própria, a partir de dados da Estratégia Nacional de
Adaptação de Mudança do Clima (2024).
1
As modelagens adotadas nesta edição não contemplam explicitamente os
efeitos das variações de temperatura sobre a eficiência dos equipamentos e a
demanda de energia.
11
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Recursos hídricos
“(...) o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que
sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira.” – João
Guimarães Rosa. A Terceira Margem do Rio, 1962.
2
12
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Recursos hídricos
Usinas hidrelétricas com reservatórios
Essas usinas permitem conservar energia por
semanas, meses ou até anos, garantindo o
fornecimento mesmo em regimes hidrológicos
adversos. Esses reservatórios também viabilizam
múltiplos serviços não energéticos como: controle
de cheias, irrigação, abastecimento humano,
recreação e navegação, embora tais usos
concorrentes possam, por vezes, restringir a
disponibilidade hídrica dedicada à geração.
Usinas hidrocinéticas
São usinas que visam o aproveitamento da energia
cinética da água, convertendo-a em energia elétrica
por meio de um rotor ou hélice em rios, com
pequenas correntezas e canais fluviais, sem a
necessidade de barragens ou reservatórios. Essa
tecnologia pode ser utilizada especialmente em
locais com restrições topográficas, além de atender
comunidades ribeirinhas nos Sistemas Isolados, ou
como fonte de microgeração distribuída. Esse
aproveitamento ainda é pouco explorado no Brasil e
estudos adicionais são necessários para quantificar
o seu potencial nacional. De toda forma, se mostra
como uma alternativa energética no PNE 2055.
A hidreletricidade tem sido historicamente a principal
fonte de geração do sistema elétrico brasileiro,
correspondendo atualmente a 55,3% da matriz elétrica
nacional (EPE, 2025). Tal protagonismo decorre tanto do
abundante potencial hídrico do território brasileiro quanto
das vantagens intrínsecas desta fonte: além de ser
renovável, apresenta elevada flexibilidade operativa,
podendo se ajustar às oscilações na demanda
praticamente em tempo real.
A expansão da hidreletricidade, contudo, enfrenta
desafios importantes. Projetos de grande porte estão
associados a impactos socioambientais significativos
e a elevados desembolsos de capital nos anos iniciais
de construção. Soma-se a isso o fato de grande parte do
potencial remanescente situar-se distante dos
principais centros de carga, exigindo vultosos
investimentos em extensas linhas de transmissão para
escoar a energia produzida.
Apesar dos obstáculos, destaca-se que a energia
potencial retida nos reservatórios pode ser convertida
em eletricidade nos períodos em que a produção
eólica ou a irradiação solar diminuem, contribuindo
para a confiabilidade do suprimento. Assim, mesmo
que reservatórios extensos possam implicar impactos
socioambientais mais expressivos, eles permitem, com
alta eficiência, a penetração crescente dessas fontes
variáveis.
Em síntese, embora a implantação de novos
aproveitamentos hidrelétricos enfrente barreiras
socioambientais, econômicas e logísticas, a
hidreletricidade permanece vital para o sistema
elétrico brasileiro. Sua capacidade singular de
armazenamento e regulação confere-lhe papel decisivo
tanto na segurança energética quanto na transição
para uma matriz cada vez mais diversificada e
dependente de fontes renováveis variáveis.
Hidrelétricas seguem protagonistas. Seus reservatórios asseguram confiabilidade frente à
intermitência eólica-solar
Usinas hidrelétricas a fio d’água
Uma usina hidrelétrica a fio d’água gera
eletricidade aproveitando o fluxo natural dos rios,
sem necessidade de grandes reservatórios. Utiliza
uma pequena represa ou o desnível natural do
terreno para direcionar a água por um conduto
forçado até a turbina, onde a força da corrente
movimenta um gerador. Após a geração, a água é
devolvida ao rio. Esse tipo de usina é ideal para
regiões com boa vazão e inclinação no leito do rio.
É uma alternativa com menor impacto ambiental e
adequada para locais com restrições de
armazenamento hídrico.
13
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Recursos hídricos
Para estimar o potencial hidrelétrico nacional, foi
elaborado um levantamento das usinas hidrelétricas
(UHEs) e pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) que se
encontram, no mínimo, com os estudos de inventário
concluídos e aprovados
1
. Com isso, assegura-se
confiabilidade técnica, econômica e socioambiental.
O valor obtido expressa o potencial passível de ser
aproveitado no longo prazo e não o que efetivamente
será desenvolvido. Trata-se de um valor dinâmico,
atrelado às premissas vigentes à época dos estudos e
sempre sujeito à revisão de critérios de viabilidade, custos
ou socioambientais.
Dos 178 GW de potencial hidrelétrico mapeado no País,
111,6 GW já estão em operação ou construção, volume
que faz do Brasil o segundo maior gerador hidrelétrico do
mundo, atrás apenas da China.
O potencial remanescente inventariado é de 66,4 GW,
conforme Tabela 3. Desse número, restam 12 GW em
UHEs que não interferem em áreas protegidas (Figura
2). Ainda assim, há desafios socioambientais, logísticos e
econômicos para o seu aproveitamento.
Em paralelo, destaca-se o potencial de 14,4 GW em
projetos de PCHs. São projetos de menor porte, que se
mostram como alternativa de expansão às hidrelétricas
convencionais.
O potencial apresentado apresenta desafios
socioambientais que se somam a entraves de natureza
econômica e regulatória. Entre eles, destacam-se a
crescente competitividade de outras fontes, os elevados
custos de financiamento e construção, além da
remuneração ainda insuficiente pelos serviços sistêmicos
prestados pelas usinas hidrelétricas.
Etapa
UHEs
(GW)
PCH (até 30 MW)
(GW)
Total
(GW)
Energia
(Mtep/ano)
2
Operação e construção
(1)
1038,6111,647
Potencial hidrelétrico
inventariado
5214,466,428
Potencial hidrelétrico brasileiro15523,017875
Tabela 3: Potencial hidrelétrico brasileiro para os estudos de longo prazo
¹ Estimativa decorre de levantamento realizado nas bases SIGA/ANEEL e Acompanhamento de UHEs da EPE (maio 2024). Considera apenas 50% da potência de Itaipu
(usina binacional).
2
Considera um fator de capacidade de 56%.
17 GW
12 GW
11 GW
12 GW
Interferem em TI ou TQ
Interferem em TI ou TQ+UC
Interferem em UC
Não interferem
Contudo, o aproveitamento do potencial hidrelétrico remanescente enfrenta desafios
socioambientais, econômicos e logísticos
Nota: UC – Unidade de Conservação; TI – Terra Indígena; TQ – Terra Quilombola.
Fonte: ANEEL (2024) e EPE (2024).
Figura 2: Relação do potencial hidrelétrico inventariado (UHEs) com as
áreas protegidas
O valor do potencial hidrelétrico de UHEs
remanescentes (inventariado) no Brasil é de 52 GW.
Porém, há desafios relevantes associados ao seu
aproveitamento.
14
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Recursos hídricos
Usinas hidrelétricas reversíveis (UHRs) se mostram como alternativa estratégica de
armazenamento para o sistema elétrico brasileiro
A água armazenada é então turbinada nos horários de maior
demanda ou menor oferta renovável, disponibilizando potência
instantânea e auxiliando a estabilidade do sistema. Originalmente
concebidas para atender à ponta diária, essas usinas figuram, em
estudos de longo prazo, como alternativa renovável e isenta de
emissões para o armazenamento de energia e a mitigação da
variabilidade das fontes eólica e solar.
Nesse contexto, a EPE elaborou um inventário inicial com o
potencial de implantação de usinas hidrelétricas reversíveis no
estado do Rio de Janeiro. O estudo considera, além da energia
armazenável e do pré-dimensionamento das obras e equipamentos,
fatores topográficos, geológico-geotécnicos, hidrológicos,
socioambientais e as necessidades sistêmicas estratégicas para o
planejamento elétrico nacional.
O levantamento identificou 23 locais adequados no estado, dos
quais 15, com condições socioambientais mais favoráveis, foram
selecionados para pré-dimensionamento. As potências estimadas
para esses projetos variam de 492 MW a 4.276 MW, totalizando
cerca de 21 GW de potencial hidrelétrico reversível para o estado
do Rio de Janeiro.
A experiência obtida nesse inventário indica a viabilidade técnica
dessa tecnologia e aponta para a possibilidade de ampliação
desse tipo de estudo para outros estados da federação,
contribuindo para avaliações em escala nacional no horizonte de
longo prazo.
As usinas hidrelétricas reversíveis (UHRs) são concebidas especificamente como sistemas de
armazenamento. Embora sejam consumidoras líquidas de energia ao longo de seu ciclo operacional,
desempenham papel estratégico ao possibilitar o bombeamento de água de um reservatório inferior
para outro superior quando em períodos de excesso de oferta, como nos momentos de elevada
geração solar e/ou eólica.
15
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Energia eólica
“Agora, sim, ela ouvia o vento. Não era um sopro uniforme: de vez
em quando amainava, de repente vinha uma rajada mais forte, e
Ana ouvia também o crepitar miúdo da poeira caindo no chão e
na coberta da casa.” – Erico Verissimo. O Tempo e o Vento, 1949.
3
16
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Energia eólica
Estes fenômenos caracterizam os ventos de
determinadas regiões tanto pela velocidade quanto pela
disponibilidade do recurso, podendo fornecer
características bastante particulares que viabilizam o uso
do recurso eólico para fins elétricos com mais confiança e
retorno. Em geral, as regiões onde se pode encontrar
maior disponibilidade e qualidade do recurso eólico
são as regiões costeiras e regiões montanhosas
(WORLD ENERGY COUNCIL, 2007).
O ar, como qualquer outro fluido quando em movimento,
possui energia que pode ser aproveitada. No caso do
recurso eólico, esse aproveitamento é obtido quando o
vento atravessa as pás de uma turbina, que são
projetadas para capturar sua energia cinética,
movimentando um eixo que une o rotor e o gerador. O
gerador, por sua vez, transforma essa energia em
eletricidade. A influência de obstáculos e da rugosidade
do terreno diminui com a altura, o que justifica a
instalação de aerogeradores em maiores altitudes e
em áreas abertas ou próximas à água. No caso das
usinas offshore, a ausência de obstáculos e a baixa
rugosidade do mar favorecem ventos mais intensos e
estáveis, além de viabilizarem turbinas maiores e mais
potentes.
Os ventos alísios que incidem sobre o litoral brasileiro, especialmente no Nordeste, são
constantes, intensos e previsíveis, proporcionando excelente geração eólica
Figura 3: Ventos alísios formados pela força inercial de Coriolis
Fonte: IAG/USP (s.d.)
O vento é provocado pelo aquecimento desigual das
superfícies da Terra. O aquecimento diferenciado das
regiões, e em específico da atmosfera, provoca gradientes
de pressão que são responsáveis por movimentos da
massa de ar. Além das diferenças de pressão, o vento é
influenciado por mecanismos complexos que envolvem a
rotação da Terra, conhecido como a força inercial de
Coriolis (Figura 3), os efeitos físicos de montanhas e
outros eventuais obstáculos e da rugosidade dos
terrenos.
No contexto da energia elétrica, são de importante
influência os ventos regionais, que são aqueles
caracterizados por brisas marítimas e terrestres, ventos
em vales e montanhas, nevoeiros, temporais e tornados.
No caso do Brasil, destaca-se a atuação dos ventos
alísios, fluxos constantes e predominantes de leste, que
incidem sobre o litoral nordestino, conferindo elevada
regularidade e intensidade ao recurso eólico nessa região.
Nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, o sistema de alta
pressão do Atlântico Sul (ASAS) influencia os ventos
predominantes, favorecendo a atuação de ventos de
leste-nordeste que podem se comportar como contra-
alísios. Esse sistema modula a estabilidade atmosférica e
afeta a intensidade e direção dos ventos, influenciando
diretamente o aproveitamento eólico nessas regiões.
17
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Energia eólica
A partir da consolidação desses estudos estaduais, o
potencial instalável onshore brasileiro foi estimado em
quase 700 GW a 150 metros de altura (Tabela 4), para
médias anuais acima de 7 m/s, valores muito superiores
aos de 2001 e que reforçam o papel estratégico do País
no cenário da transição energética global.
O mapeamento do potencial eólico brasileiro começou na
década de 1970, com a elaboração do primeiro atlas em
1979, baseado em medições anemométricas limitadas a
até 10 metros de altura. Esse panorama começou a
mudar significativamente com o Atlas de 2001, que
incorporou torres de medição de 50 metros e simulações
computacionais mais avançadas, estimando um
potencial instalável de 143 GW para ventos médios
superiores a 7 m/s. No entanto, esse valor tornou-se
defasado diante da evolução tecnológica dos
aerogeradores, que hoje operam frequentemente acima
de 100 metros de altura.
Com o Atlas Eólico Nacional publicado em 2013 pelo
CEPEL, o Brasil passou a contar com dados mais
abrangentes, incluindo mapas temáticos de velocidade
do vento e densidade de potência para alturas de até 200
metros. Complementarmente, diversos estados
desenvolveram seus próprios atlas, permitindo
estimativas mais refinadas.
Essa evolução reflete não apenas melhorias
metodológicas e tecnológicas (como taxas de ocupação
mais realistas, curvas de potência atualizadas e exclusão
de áreas com restrições legais), mas também a crescente
maturidade do setor.
Figura 4: Potencial eólico estimado e distribuição dos parques eólicos
em operação no Brasil.
Estados
Potência
Instalável
(MW)
Energia
(GWh)
Energia
(Mtep/ano)
BA
2013
195.200766.500
66
CE
2019
94.274362.162
31
ES
2022
15.00658.340
5
PB
2016
42.100167.880
14
PE
2017
20.829
1
84.158
1
7
RN
2022
82.880303.230
26
RS
2014
245.300911.000
78
Total695.5892.653.270
228
Tabela 4: Levantamentos estaduais do potencial eólico a 150 metros
de altura
O Brasil apresenta condições vantajosas para o aproveitamento do recurso eólico onshore
devido a sua extensa faixa litorânea e à presença de ventos constantes também no interior
Fonte: Elaboração própria.Fonte: Elaboração própria, a partir de (CEPEL, 2013) e (ANEEL, 2024).
1
Potencial instalável de Pernambuco considera altura de 140 metros.
18
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Energia eólica
Além da extensa faixa litorânea, o Brasil apresenta
amplas áreas de águas rasas, regimes de vento
constantes e sinergias estruturais com a infraestrutura do
setor de óleo e gás, notadamente nas regiões Sudeste e
Nordeste.
Nesse cenário, torna-se essencial aprofundar o
conhecimento sobre o recurso e consolidar a eólica
offshore como alternativa estratégica para a expansão da
matriz elétrica nacional – movimento já considerado nos
Planos Decenais de Expansão da EPE desde 2019.
Apesar de ainda não haver parques eólicos offshore
instalados no Brasil, o interesse por essa fonte tem
crescido de forma expressiva nos últimos anos. O País
conta com mais de 8.000 km de costa, o que, aliado ao
bom regime de ventos no litoral, torna o território
especialmente atrativo para a geração eólica marítima.
Um marco relevante para o desenvolvimento da energia
eólica offshore no Brasil foi o lançamento, em 2020, do
Roadmap da Eólica Offshore. O documento avaliou o
potencial técnico do recurso no litoral brasileiro,
identificou barreiras tecnológicas, regulatórias e
ambientais, e fomentou o engajamento de diversos
agentes públicos e privados.
Estima-se um potencial técnico instalável de
aproximadamente 697 GW em áreas marítimas com
profundidade de até 50 metros, com geração anual
estimada de 2.536 TWh (equivalente a 218 Mtep)
1
. A
Tabela 5 apresenta os valores de Fator de Capacidade por
região litorânea, parâmetro essencial para a análise do
potencial técnico.
Desde então, as discussões vêm evoluindo, alguns
avanços normativos e regulatórios foram alcançados e,
até março de 2025, mais de 247 GW de projetos (com
sobreposições espaciais entre si) estavam com processos
de licenciamento abertos no IBAMA (2025).
Figura 5: Mapa de calor com a velocidade média anual dos ventos
offshore a 100 metros de altura
2
Velocidade
(m/s)
Fator de Capacidade
NorteNordesteSudesteSul
6,0 - 6,522%23%22%23%
6,5 - 7,025%30%32%31%
7,0 - 7,532%37%38%37%
7,5 - 8,036%42%43%43%
8,0 - 8,540%46%47%46%
8,5 - 9,047%54%49%49%
9,0 - 9,553%62%53%53%
9,5 - 10,056%65%56%56%
≥ 10,059%68%59%59%
Tabela 5: Fator de Capacidade nas regiões brasileiras
Com mais de 8.000 km de costa com ventos intensos e constantes ao longo da “Amazônia
Azul”, o Brasil reúne condições excepcionais para a geração de energia eólica offshore
Fonte: Elaboração própria.
Fonte: Elaboração própria.
1
Potencial a 100 metros de altura, considerando áreas com velocidades médias ≥ 7m/s e profundidade de até 50 metros.
2
O estudo e mapa apresentados foram elaborados antes do reconhecimento oficial da ampliação da área marítima brasileira (em março de 2025).
19
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Biomassa
“Luz do sol / Que a folha traga e traduz / Em verde novo / Em folha,
em graça, em vida, em força, em luz.” – Caetano Veloso. Luz do Sol,
1986.
4
20
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Biomassa
A bioenergia responde por 8,8% do consumo energético
mundial, o que corresponde a 1,3 bilhão de toneladas
equivalentes de petróleo (tep) (IEA, 2023a). Entre 2010 e
2022, a demanda internacional por biomassa aumentou
aproximadamente 20%.
Desse total, o Brasil participa com 107 milhões de tep
(Mtep). No âmbito doméstico, a biomassa representou
33,3% da Oferta Interna de Energia em 2024 – produtos
da cana-de-açúcar responderam por 16,7%, lenha e
carvão vegetal por 8,5%, e lixívia, biodiesel, outras
biomassas, biogás e gás de carvão vegetal somaram os
8,1% restantes (EPE, 2025).
A bioenergia brasileira baseia-se em seis famílias de
recursos: biomassa florestal (principalmente lenha e
carvão vegetal), cana-de-açúcar, milho, óleos e gorduras,
resíduos agropecuários e resíduos urbanos. Esses
insumos abastecem tanto a geração elétrica quanto a
produção de biocombustíveis, e ocupam lugar de
destaque na matriz nacional.
O Brasil dispõe de condições climáticas favoráveis,
ampla disponibilidade de terras agricultáveis e
conhecimento técnico que viabilizam o aumento
sustentável da produção de biomassa. O País detém
um mercado já maduro – tanto em oferta quanto em
consumo – aliado a uma cadeia de serviços consolidada
para projetos de bioenergia. Centros de pesquisa públicos
e privados mantêm programas contínuos de
melhoramento genético, mecanização e otimização de
rotas de conversão energética, elevando a produtividade
por hectare.
No campo regulatório, políticas públicas fomentam o
uso de combustíveis renováveis no País e incentivam
investimentos no setor, como o RenovaBio (Política
Nacional de Biocombustíveis, Lei nº 13.576/2017), a
Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº
12.305/2010) e o Combustível do Futuro (Lei nº
14.993/2024). Em escala internacional, iniciativas de
descarbonização do transporte aéreo (ICAO/CORSIA) e
marítimo (IMO) sinalizam demanda adicional por
biocombustíveis de base biomassa, reforçando a
vantagem comparativa brasileira para 2055.
Condições climáticas favoráveis, vastas terras agricultáveis, conhecimento técnico e
mercado estruturado facilitam a expansão da biomassa no Brasil
21
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Biomassa
Figura 6: Projeção da produção de bagaço, caldos para etanol e açúcar e palha e ponta
Perspectivas para 2055 apontam que a produção de cana-de-açúcar poderá dobrar,
consolidando-se como vetor estratégico da descarbonização da matriz brasileira.
Processos produtivos da cana-de-açúcar
O caldo extraído da moagem abastece simultaneamente
a fabricação de açúcar e a produção de etanol de 1ª
geração. O bagaço remanescente, por sua vez, é
consumido nas caldeiras das usinas através da cogeração
de calor e eletricidade para o consumo da usina e para
exportação ao Sistema Interligado Nacional (SIN). Nos
últimos anos, bagaço, palha e ponta passaram a servir
também de insumo para a rota de etanol de 2ª geração.
Além disso, palha e ponta reforçam o suprimento de
biomassa para as caldeiras. A vinhaça, subproduto da
fermentação do caldo, pode ainda ser biodigerida para
produzir biogás.
Expansão projetada da cana-de-açúcar
A partir de projeções do MAPA (2024), estima-se que a
produção de cana poderá dobrar no horizonte do PNE
2055, alcançando pouco mais de 1,4 bilhão de
toneladas. Nesse caso, a oferta energética proveniente
da cana, hoje em 86,5 Mtep, poderá atingir 181,9 Mtep
em 2055 – um incremento de 109 % que consolida o
complexo sucroalcooleiro como importante vetor da
descarbonização da matriz energética brasileira.
Etanol de milho
O etanol de milho utiliza o amido do grão como matéria-prima e se beneficia de duas características logísticas-chave: (i) o
cereal pode ser armazenado, permitindo operação contínua das usinas ao longo do ano, e (ii) boa parte da produção
nacional provém da safrinha – a segunda safra semeada logo após a colheita da soja, que aproveita a umidade residual do
solo e dispensa a abertura de novas áreas agrícolas. A expansão baseada na safrinha reforça a sustentabilidade do
insumo, pois eleva a produtividade anual por hectare e reduz pressões sobre o uso da terra.
A partir das projeções do MAPA (2024), estima-se uma produção potencial de 318 milhões de toneladas de milho até o
final do horizonte do PNE 2055. Caso essa produção seja integralmente destinada à rota alcooleira, seria possível
produzir cerca de 134 bilhões de litros de etanol, equivalente a 68 Mtep de oferta energética.
Fonte: Elaboração própria, a partir de projeções de MAPA (2024).
183
315
392
256
436
487
238
417
572
105
181
225
0
200
400
600
800
1.000
1.200
1.400
1.600
1.800
20232025202720292031203320352037203920412043204520472049205120532055
milhões de toneladas
Palhas e Pontas
Caldo para açúcar
Caldo para etanol
Bagaço
22
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Biomassa
Soja segue como principal insumo para biodiesel e o aproveitamento do sebo bovino se
confirma como alternativa para diversificar a base de matérias-primas
Biodiesel
O biodiesel pode ser produzido a partir de óleos vegetais,
novos ou usados, gorduras animais, ácidos graxos
residuais de processos industriais e de resíduos urbanos.
Atualmente, a cultura que abastece a maior parte do
consumo nacional de biodiesel é a soja, cultura anual
que produz cerca de 620 litros de óleo por hectare.
Convém ressaltar que o potencial futuro depende das
projeções de produção da soja, as quais variam conforme
o cenário macroeconômico adotado e pressupõem a
manutenção da relevância do setor agropecuário no longo
prazo.
No caso da gordura animal, estima-se que, em 2055,
sejam abatidas 68 milhões de cabeças de gado, cada
uma com cerca de 23 kg de gordura (ANUALPEC, 2011), o
que totalizaria aproximadamente 1,56 milhão de
toneladas de sebo. Como seu preço se mantém próximo
ao do óleo de soja, espera-se que essa fonte se torne
economicamente mais atraente ao longo dos anos.
Historicamente, o sebo bovino responde por cerca de
15% da oferta de biodiesel, mas poderia alcançar algo
próximo de 35% caso todo o potencial fosse
efetivamente utilizado.
Em 2022, o Brasil produziu 4,9 milhões de tep (Mtep) de biodiesel, o equivalente a apenas 13% do potencial teórico
daquele ano e a cerca de 2% do consumo final de energia nacional, mesmo com uma oferta de insumos estimada em
24,9 Mtep. Para 2055, projeta-se um potencial teórico de até 54,9 Mtep com base na produção agropecuária prevista
pelo MAPA (2024) ou até 68 Mtep se considerado que parte da área amazônica possa fornecer insumo a partir da palma.
É importante ressaltar que os principais insumos utilizados para a produção de biodiesel (óleos vegetais) têm a indústria
alimentícia como mercado principal devido à melhor remuneração. Por isso, é estratégico ampliar a oferta de insumos
que não rivalizem com a cadeia alimentar, como os óleos produzidos a partir de resíduos.
Fonte: Elaboração própria, a partir de ANP (2025) e EPE (2025).
Figura 7: Evolução da produção de biodiesel do Brasil, por região, em milhões de m³
0
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
20052006200720082009201020112012201320142015201620172018201920202021202220232024
Centro-OesteSulNordesteNorteSudeste
B2 | Jan
B3 | Jul
B4 | Jul
B5 | Jan
B6 | Jul
B7 | Nov
B8 | Mar
B10 | Mar
B11 | Set
B12 | Mar
B10 | Set
B11 | Nov
B12 | Jan
B13 | Mar
B10 | Mai
B12 | Set
B10 | Nov
B12 | Abr
B14 | Mar
23
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Biomassa
0
5
10
15
20
2022202320242025202620272028202920302031203220332034203520362037203820392040204120422043204420452046204720482049205020512052205320542055
Esterco Bovino Corte nas
proximidades do curral
Esterco Suíno
Esterco Avícola
Esterco Bovino Leite
(confinado)
Figura 8: Projeção do conteúdo energético disponível pela biomassa residual de pecuária, em Mtep
0
50
100
150
200
250
300
2022202320242025202620272028202920302031203220332034203520362037203820392040204120422043204420452046204720482049205020512052205320542055
Casca de Arroz
Palha de Arroz
Palha de Trigo
Palha de Soja
Palha de Milho
Eficiência pecuária diminui potencial de biomassas residuais do setor, enquanto expansão
de palhas agrícolas favorece ampliação das biomassas residuais agrícolas
Biomassas residuais da pecuária
Para estimar o potencial energético dos resíduos
pecuários, considerou-se o esterco gerado em sistemas
confinados de suínos, aves e bovinos de leite, além de
40% do esterco produzido por bovinos de corte em regime
extensivo próximo a currais. Os resultados indicam que,
em 2023, o volume de esterco com potencial
energético somou cerca de 19 Mtep. Até 2055, embora
se projete expansão na produção de carne, ovos e leite,
ganhos de eficiência - como maior rendimento de carcaça
e avanço genético, devem levar a um leve decréscimo do
rebanho de bovinos de corte, reduzindo o potencial total
para aproximadamente 17 Mtep
1
.
Biomassas residuais agrícolas
Resíduos agrícolas representados pelas palhas de soja,
milho, arroz e trigo, além da casca de arroz, constituem
um subproduto inevitável da colheita e do beneficiamento
desses grãos. Essa biomassa pode ser coletada e usada
como combustível para gerar calor ou eletricidade. Em
2023, o volume disponível de biomassa residual
agrícola superou 120 Mtep. Esse potencial deverá
ultrapassar 271 Mtep em 2055, um acréscimo de mais
de 2 vezes. A maior contribuição virá das palhas de milho
e soja, impulsionadas pela expansão dessas lavouras,
enquanto arroz e trigo apresentam crescimentos mais
modestos
2
.
¹ Para a evolução de rebanhos da pecuária, cujas projeções feitas são de disponibilidade de carne, ovos e leite, houve a conversão de carne em número de cabeças
abatidas, com base em fatores típicos, chegando-se ao rebanho utilizando a taxa de abate típica.
2
Para evolução da produção agrícola adotou-se o limite superior das projeções realizadas por MAPA (2024), a partir desse patamar, as curvas foram prolongadas
linearmente até 2055.
Fonte: Elaboração própria, a partir de projeções de MAPA (2024).
Figura 9: Projeção do conteúdo energético disponível pela biomassa residual agrícola, em Mtep
Fonte: Elaboração própria, a partir de projeções de MAPA (2024).
24
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Biomassa
Efluentes sanitários urbanos
No caso dos efluentes sanitários urbanos, a disponibilidade de biomassa foi projetada considerando: (i) a taxa de
atendimento da rede de coleta de esgoto, (ii) a produção de resíduos líquidos gerados por pessoa, e (iii) o teor de sólidos
orgânicos. Partiu-se do índice de atendimento de 63,2% medido pela PNAD/IBGE em 2020 e adotou-se a meta
estabelecida pelo novo marco do saneamento (Lei n° 14.026/2020) de 90% em 2033, avançando até a universalização em
2040. Considerando essas premissas, o potencial energético contido nos efluentes deverá dobrar no horizonte do
PNE 2055: de cerca de 0,5 Mtep em 2020 para 1,0 Mtep em 2055.
Ano
Produção
(mil t)
Produção per
capita
(kg/d)
Orgânico
(%)
Papéis
(%)
Plásticos
(%)
Vidros
(%)
Metais
(%)
Outros
(%)
Energia
(Mtep)
202281.8111,0445,310,416,82,72,322,5
1,80
202586.2961,0843,712,817,43,02,520,6
1,83
203093.5281,1440,916,718,33,52,715,5
1,86
2035100.3381,2038,220,119,03,92,914,4
1,86
2040106.6171,2635,524,920,14,63,211,3
1,84
2045112.2851,3232,729,021,15,13,58,1
1,78
2050117.2751,3830,033,022,05,63,75,0
1,71
2055116.3811,3830,033,022,05,63,75,0
1,70
Mudança nos hábitos de consumo pode reduzir resíduos sólidos urbanos, enquanto metas
no saneamento podem impulsionar o potencial energético dos efluentes
Resíduos sólidos urbanos
A produção de resíduos sólidos urbanos cresce junto com
a população e a renda, mas o seu valor energético
depende sobretudo da fração orgânica presente em cada
tonelada descartada, componente que varia segundo
fatores socioeconômicos, culturais e regionais
1
.
O volume total de resíduos continuará a crescer, mas a
proporção de matéria orgânica deve encolher
significativamente.
Esse deslocamento, que pode ser verificado na Tabela 6,
reflete a trajetória observada em economias de maior
renda: à medida que a sociedade adota dietas mais
processadas e amplia a coleta seletiva, a participação de
restos de alimentos e outros materiais biodegradáveis
diminui. Esse comportamento reduz ligeiramente o
conteúdo energético: de 1,8 Mtep em 2022 para
aproximadamente 1,7 Mtep em 2055.
¹ Para estimar a oferta futura, cruzaram-se as projeções de PIB do PNE 2050 e
de população do IBGE até 2055 com as taxas de geração per capita publicadas
pela ABRELPE (2022) e a composição média indicada pelo SINIR (2024).
Tabela 6: Projeção da geração de resíduos sólidos urbanos, per capita e composição
Fonte: Elaboração própria.
25
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Biomassa
Do extrativismo à silvicultura, florestas plantadas lideram o potencial energético florestal
com o avanço da lenha e do licor preto da indústria de celulose
Biomassa florestal
O setor florestal brasileiro reúne duas frentes distintas. A primeira é o extrativismo de florestas nativas, voltado a madeiras de maior valor agregado para móveis, construção e usos
industriais nobres, altos valores desses produtos. Estes foram retirados da análise para o mercado energético. A segunda é a silvicultura que fornece os três insumos energéticos que
foram analisados neste estudo: lenha, carvão vegetal e madeira em tora.
Ao longo das últimas três décadas, a origem dos principais insumos florestais para energia no Brasil passou por uma reversão estrutural: enquanto nos anos 1990 predominava o
extrativismo de florestas nativas, hoje a maior parte da lenha, carvão vegetal e madeira em tora provém de florestas plantadas.
Os cálculos indicam que o conteúdo energético disponível na silvicultura pode mais que dobrar no horizonte do PNE 2055, saltando de aproximadamente 30 Mtep em 2022 para
cerca de 70 Mtep em 2055, com destaque para o avanço da lenha e do licor preto gerado na indústria de celulose
1
.
Figura 11: Potencial energético dos produtos de florestas plantadas, em Mtep
0
10
20
30
40
50
60
70
80
202220252028203120342037204020432046204920522055
Destoca de Papel e
Celulose
Resíduos de Madeireira
de Silvicultura
Licor Preto disponível
Carvão vegetal
Lenha
¹ Para projetar o potencial energético da biomassa de silvicultura, tomou-se a participação média desses itens nos últimos dez anos, período em que a madeira destinada a papel e celulose respondeu por cerca de 41 %, segundo a base SIDRA/IBGE. Essa
estrutura foi aplicada ao volume futuro de florestas plantadas estimado pelo MAPA até 2055.
Figura 10: Participação dos produtos florestais plantadas (silvicultura) na produção florestal, de 1990 a 2022
0%
20%
40%
60%
80%
100%
19901992199419961998200020022004200620082010201220142016201820202022
Carvão VegetalLenhaMadeira em tora (outras finalidades)
Fonte: Elaboração própria, a partir de IBGE (2022).
Fonte: Elaboração própria, a partir de MAPA (2024).
26
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Biomassa
Perspectivas de ganho de produtividade e intensificação do setor pecuário podem reforçar
os resíduos agrícolas como insumo estratégico para bioenergia
Estima-se que o potencial de biomassa possa alcançar
614 Mtep em 2055, impulsionado principalmente pelos
resíduos agrícolas, superando em mais do que o dobro o
consumo final de energia de 2024, que totalizou 288 Mtep
(EPE, 2025).
Esse aumento decorre, sobretudo, de ganhos de
produtividade no campo e da intensificação da pecuária,
que eleva o número de cabeças por hectare e libera áreas
atualmente ocupadas por sistemas extensivos, evitando
novos desmatamentos. Parte dessas biomassas, como
resíduos agrícolas, bagaço e lenha, pode ser utilizada
diretamente como combustível, outras, entre elas os
resíduos pecuários e urbanos, exigem pré-processamento
para a produção de biogás ou biometano. Nestes casos, a
estimativa do potencial energético foi feita com base no
potencial de produção de biogás a partir destas
biomassas.
No horizonte do PNE 2055, a biomassa residual agrícola
deverá responder por 271 Mtep, consolidando-se
como a principal fonte para oferta de bioenergia. Na
sequência vêm os produtos da cana-de-açúcar (bagaço,
caldo dedicado ao etanol e palha/ponta) que somarão
184 Mtep, óleos e gorduras destinados ao biodiesel, com
55 Mtep, biomassa florestal oriunda de silvicultura
sustentável adicionando 70 Mtep, e resíduos da pecuária,
convertidos em biogás, com mais 18 Mtep.
Esses números revelam que existe amplo espaço para ampliar a participação de energéticos renováveis na
matriz brasileira.
Dois grandes blocos concentram vantagens competitivas: a indústria sucroalcooleira, que conta com infraestrutura
produtiva e mercado consolidados, e a biomassa residual, cuja valorização eleva a produtividade econômica de setores
agropecuário, florestal e urbano ao transformar subprodutos em energia, reduzindo impactos ambientais locais.
Biomassa
2023
(Mtep)
2055
(Mtep)
Bagaço da cana38,983,4
Palhas e pontas da cana32,569,7
Caldo de cana para etanol15,028,7
Vinhaça de etanol de cana1,63,1
Etanol de milho3,068,2
Gorduras para biodiesel24,954,9
Resíduos da pecuária19,917,8
Resíduos agrícolas120,9271,8
RSU - Biodigestão da fração orgânica1,81,7
RLU – Biodigestão da fração orgânica do esgoto0,51,0
Biomassa florestal convencional33,770,4
Bioenergia total293,5670,7
Tabela 7: Potencial de produção de biomassa em 2023 e 2055, em Mtep
Fonte: Elaboração própria.
27
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Energia solar
“Dá o sol, de onda forte, dá que dá, a luz tanta machuca.” – João
Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas, 1956.
5
28
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Energia solar
O Brasil possui condições vantajosas para o aproveitamento do recurso solar por estar
quase que totalmente na região limitada pelos Trópicos de Câncer e de Capricórnio
O homem se aproveita há milênios da energia proveniente
do Sol. No início do processo de civilização, a apropriação
da energia pela humanidade se deu através da agricultura
e da pecuária, as quais por meio do aproveitamento
controlado da fotossíntese e da cadeia alimentar
processam a energia direta do Sol (SAUER et al., 2011).
Além do citado, há diversas outras maneiras de
aproveitamento da energia solar, sendo a iluminação,
talvez, a mais evidente delas para a população.
A despeito das muitas aplicações para essa forma de
energia, os estudos do PNE 2055 consideraram as
aplicações derivadas do calor e do efeito fotovoltaico.
O Brasil está situado quase que totalmente na região
limitada pelos Trópicos de Câncer e de Capricórnio, de
incidência mais vertical dos raios solares. Esta condição
propicia elevados índices de incidência da radiação solar
em quase todo o território nacional, inclusive durante o
inverno, o que confere ao País condições vantajosas para
o aproveitamento energético do recurso solar.
Principais tipos de aproveitamento
▪Fotovoltaica: o aproveitamento fotovoltaico converte
diretamente a luz solar em eletricidade por meio de
células fotovoltaicas, geralmente feitas de silício. Essa
tecnologia tem experimentado grande
desenvolvimento nos últimos anos em função do baixo
custo, modularidade, facilidade de instalação, baixa
necessidade de manutenção, longa vida útil e a não
emissão de gases de efeito estufa durante a operação.
▪Heliotérmica: essa tecnologia utiliza espelhos ou
lentes para concentrar a luz solar e aquecer um fluido,
gerando vapor que movimenta turbinas para produzir
eletricidade. Esta tecnologia apresenta maior
complexidade para a seleção dos possíveis sítios de
geração e é menos modular que a fonte fotovoltaica.
Por outro lado, possui a vantagem de maior
flexibilidade operativa quando combinada com
armazenamento térmico.
▪Aquecimento d’água: a tecnologia de aquecimento
solar de água utiliza coletores solares, geralmente
instalados nos telhados, para captar a radiação solar e
aquecer a água que circula por tubulações. Essa água
aquecida é armazenada em reservatórios térmicos
para uso em residências, comércios ou indústrias,
reduzindo o consumo de eletricidade ou gás em
sistemas convencionais de aquecimento.
Figura 12: Mapa da irradiação solar horizontal (média anual) no Brasil
Fonte: Adaptado de INPE (2017).
29
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Energia solar
O aproveitamento fotovoltaico, seja através de plantas distribuídas ou centralizadas,
possui grande potencial no Brasil
Fotovoltaica distribuída
O aproveitamento fotovoltaico através de sistemas de
geração distribuída (GD) tem maior flexibilidade
locacional. Uma grande vantagem desses sistemas é o
compartilhamento de área, como a aplicação sobre
telhados, fachadas e coberturas de estacionamento. Por
outro lado, a legislação brasileira permite sistemas de GD
remotos, afastados do local de consumo. Assim, pode-se
afirmar que há enorme flexibilidade para o
aproveitamento fotovoltaico distribuído no Brasil.
Um estudo específico para o aproveitamento em telhados
residenciais, que estimou a área disponível no País,
identificou um potencial de geração anual de 34 Mtep.
Os resultados mostram que os maiores potenciais de
geração, em termos absolutos, estão nas regiões mais
povoadas do País, onde uma possível menor irradiação é
sobrepujada pelo maior número de domicílios e,
consequentemente, maior área de telhados. No entanto,
salienta-se que, em tese, atualmente todos os estados
teriam condição de suprir seu consumo elétrico
residencial de forma integral com o advento da energia
fotovoltaica.
Os estudos demonstraram que a área não é fator
limitante para a massiva inserção de sistemas
fotovoltaicos distribuídos no Brasil no horizonte 2055.
Fotovoltaica centralizada
Em aplicações centralizadas, são utilizadas grandes áreas
planas e contíguas para o aproveitamento fotovoltaico
(FV). Nesse caso, comparativamente, há maiores
restrições para o desenvolvimento de projetos. No PNE
2055 foi realizada uma estimativa do potencial a partir de
um mapeamento das áreas aptas às instalações em todo
território brasileiro. Foram utilizados critérios técnicos,
econômicos e socioambientais para delimitar as áreas
aptas ao aproveitamento (Figura 13). Conclui-se que
somente na área de melhor irradiação, há um
potencial de 149 Mtep/ano.
Figura 13: Áreas aptas para implantação de centrais fotovoltaicas no
Brasil
Faixa de
irradiação
(kWh/m² dia)
Área Apta
(km²)
Potencial
(GW)
Energia Gerada
(Mtep/ano)
4,4-4,879.8554.314
750
4,8-5,1180.6589.756
1.782
5,1-5,4269.85114.572
2.790
5,4-5,586.6034.677
920
5,5-5,631.9231.724
355
5,6-5,891.7804.956
1.046
5,8-6,063.9533.453
767
6,0-6,212.038650
149
Total843.69644.101
8.559
Tabela 8: Potencial energético em plantas FV centralizadas
Fonte: Elaboração própria.
Fonte: Elaboração própria.
30
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Energia solar
Aplicações flutuantes surgem como estratégias complementares ao aproveitamento em
solo
Fotovoltaica em reservatórios
Outra forma de aproveitamento do recurso solar é por
meio de sistemas fotovoltaicos flutuantes, em espelhos
d’água. Tal aplicação vem ganhando relevância por meio
de projetos-piloto já instalados ou previstos para os
reservatórios de algumas hidrelétricas nacionais.
Uma análise realizada por Padilha et al. (2022) concluiu
que, ao considerar a cobertura de apenas 1% das áreas
aptas para essa tecnologia, o que é uma estimativa
conservadora, poderia suprir 16,5% do consumo
nacional de eletricidade.
Fotovoltaica offshore
Além dos sistemas flutuantes em reservatórios de água
doce, surgem internacionalmente alguns pilotos de
sistemas offshore, ou seja, sobre o mar. A principal
aplicação desses sistemas é o atendimento de pequenas
ilhas com restrição de terras para o aproveitamento
fotovoltaico em solo. No entanto, com cerca de um
quarto da população brasileira vivendo em cidades
litorâneas, a geração fotovoltaica offshore pode ser
uma solução para o atendimento elétrico dessas zonas
com reduzido investimento em linhas de transmissão.
Apesar do grau de incipiência dessa aplicação
fotovoltaica, a EPE buscou realizar um exercício de
quantificação do potencial técnico de geração offshore,
com base em dados de irradiação e restrições
ambientais. A área considerada no estudo é composta
pelo Mar Territorial, a Zona Contígua e a Zona Exclusiva
Econômica - ZEE brasileira.
De forma análoga aos demais estudos de FV, o potencial
final indicado considera somente 1% da área de maior
irradiação (acima de 6,5 kWh/m²/dia). Essa análise
resulta em um potencial de 52 Mtep/ano, que é
aproximadamente igual ao consumo nacional de
eletricidade em 2024 (EPE, 2025).
Tabela 9: Potencial energético em plantas FV flutuantes por tipo de
corpo d’água
Tipo de corpo d’água
Potencial
(MW)
Energia
(Mtep/ano)
Açude/Represa6.219
1,02
Riacho/Canal/Rio169
0,02
Bacia/Cava/Dique/Reservatório/Tanque30
0,00
PCH/CGH671
0,10
UHE31.520
4,93
Lago/Lagoa127
0,02
Sem classificação4.541
0,72
Total43.276
6,82
Figura 14: Mapa para aproveitamento fotovoltaico offshore na ZEE
brasileira
1
Fonte: Padilha et al. (2022).
Fonte: Elaboração própria.
Irradiação global
horizontal
(kWh/m²/dia)
até 4,4
4,4 – 4,8
4,8 – 5,1
5,1 – 5,4
5,4 – 5,5
5,6 – 5,8
5,5 – 5,6
5,8 – 6,0
6,0 – 6,2
6,2 – 6,4
6,4 – 6,6
6,6 – 6,87
¹ O estudo e mapa apresentados foram elaborados antes do reconhecimento
oficial da ampliação da área marítima brasileira (em março de 2025).
31
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Energia solar
A tecnologia heliotérmica, embora menos desenvolvida comercialmente, também possui
vasto potencial técnico, dados os elevados níveis de irradiação normal direta no Brasil
Heliotérmica
O potencial foi levantado por Burgi (2013) a partir de
modelagem em SIG e simulação de plantas virtuais.
Basicamente, foram avaliadas as áreas aptas para
instalação das plantas, aplicando critérios de exclusão,
como nível mínimo de irradiação, declividade máxima,
proximidade de subestações, disponibilidade hídrica,
Unidades de Conservação, Terras Indígenas, entre outros.
O potencial, apontado pela Tabela 10, varia de acordo
com o tipo da tecnologia. Apesar de conservador, o
menor potencial encontrado (359 TWh/ano) representa
mais que o consumo atual de eletricidade na Região
Sudeste.
Tecnologia
Potencial
(GW)
Energia gerada
(Mtep/ano)
Cilindro parabólico
(sem armazenamento)
413
63
Cilindro parabólico
(com armazenamento)
203
57
Torre solar
(com armazenamento)
98
31
Tabela 10: Potencial energético nacional em plantas heliotérmicas
Fonte: Burgi (2013).
Usina Termossolar em Rosana (SP) – Projeto Piloto. Fonte: Auren/Divulgação.
32
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Energia oceânica
“As ondas corriam umas sobre as outras. Isso dentro da baía,
antes mesmo do quebra-mar. Como não estaria então lá fora,
adiante da barra, onde o mar fosse livre?” – Jorge Amado. Mar Morto,
1936.
6
33
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Energia oceânica
A extensa costa brasileira e as vastas áreas de mar territorial são condições naturais que
abrem plenas possibilidades para o aproveitamento energético dos recursos do mar
O amplo potencial dos recursos energéticos do mar tem
atraído atenção e interesse crescentes das comunidades
científicas e governamentais. Embora a tecnologia para
essa energia seja recente e ainda em vias de ser
comercial, o aproveitamento dos recursos do mar
apresenta-se promissor em função de diversos fatores,
dentre os quais suas extensas áreas, a distribuição
mundial dos oceanos e, principalmente, a alta densidade
energética (UFRJ e SEAHORSE WAVE ENERGY, 2013).
As principais formas de aproveitamento da energia
oceânica incluem:
▪Energia das ondas, que utiliza o movimento da
superfície do mar para gerar eletricidade por meio de
dispositivos flutuantes ou submersos;
▪Energia das marés, que explora o fluxo e o refluxo das
marés em regiões costeiras por meio de barragens ou
turbinas submersas;
▪Energia das correntes oceânicas, que aproveita o
movimento contínuo das massas de água profundas
ou superficiais para acionar turbinas;
▪Gradiente térmico oceânico, baseado na diferença
de temperatura entre as camadas superficiais quentes
e profundas frias, pode ser explorado para mover um
fluido de trabalho e gerar eletricidade;
▪Gradiente de salinidade, diferença na concentração
de sal entre água doce e salgada – pode ser convertido
em energia elétrica por meio de processos como a
osmose reversa ou eletrodiálise.
Potencial nacional
Estudo conduzido pela COPPE/UFRJ e Seahorse Wave
Energy (2013) levantou o potencial teórico brasileiro de
energia oceânica. O estudo foi realizado através de
medições in situ e em literatura sobre o tema. A estimativa
partiu da extensão do litoral de cada estado e da altura
significativa de onda média e período médio no ano.
Assim, o potencial brasileiro de ondas e marés é
estimado em 34 Mtep/ano, conforme Figura 20. Como
ordem de grandeza, esse valor é próximo ao consumo de
eletricidade das regiões Sul e Sudeste em 2024 (EPE,
2025).
Do ponto de vista teórico, pode-se considerar
conservador o potencial ora apresentado, tendo-se em
conta ter sido quantificado para o aproveitamento das
ondas e marés apenas, e que a inclusão das demais
alternativas discutidas anteriormente poderá expandi-lo.
Porém, uma análise mais detalhada deve ser realizada
para uma estimativa mais acurada dos melhores sítios
para aproveitamento e a capacidade de geração
correspondente. Assim, a presente avaliação é de caráter
preliminar.
Figura 15: Potencial teórico brasileiro estimado de ondas e marés
27 GW - 8 Mtep/ano (ondas)
8 GW - 2 Mtep/ano (marés)
14 GW - 4 Mtep/ano (marés)
30 GW - 9 Mtep/ano (marés)
35 GW - 11 Mtep/ano (marés)
Fonte: Adaptado de UFRJ & SEAHORSE WAVE ENERGY (2013).
Nota: Geração anual calculada a partir de um fator de capacidade de 40%.
34
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Hidrogênio natural
“Minas não é palavra montanhosa / É palavra abissal
Minas é dentro e fundo / As montanhas escondem o que é Minas.”
– Carlos Drummond de Andrade. A Palavra Minas, 1973.
7
35
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Hidrogênio natural
Como exercício preliminar de quantificação, adotou-se
um conjunto de premissas extraídas da literatura recente
para dimensionar, em ordem de grandeza, o potencial
brasileiro de produção de hidrogênio natural. Com base
nesses parâmetros, o Brasil poderia atingir em torno de
15 milhões de toneladas por ano, volume equivalente a
quase 4% da demanda mundial projetada para 2050
(MCKINSEY & COMPANY, 2024; IEA, 2023c; IEA, 2023d;
PWC, 2023).
Considerando a densidade gravimétrica de energia do
hidrogênio – 143 MJ/kg (TASHIE-LEWIS et al., 2021), tal
produção corresponderia a aproximadamente 52 Mtep.
Entretanto, as evidências disponíveis, obtidas em poucas
localidades e sob forte incerteza geológica, não permitem
estimar de forma robusta o real potencial brasileiro.
As publicações atuais ressaltam a complexidade da
mensuração e a necessidade de estudos adicionais
que ampliem a cobertura espacial, aumentem a
densidade de sensores ou, alternativamente, utilizem
períodos de monitoramento mais extensos, além da
necessidade de definição de um marco legal e regulatório
adequado. A clareza sobre direitos de exploração,
segurança operacional e padrões ambientais será
decisiva para atrair investimentos e transformar o
potencial técnico em oferta comercial.
Hidrogênio natural já apresenta indícios no Brasil, entretanto mais estudos são necessários
para comprovar seu real potencial
Estudos apontam o hidrogênio (H₂) como fonte relevante
para alcançar os objetivos climáticos globais, sobretudo
na descarbonização de setores de difícil abatimento,
como certos ramos industriais e o transporte de longa
distância (IEA, 2023b). Dentro do espectro conhecido
internacionalmente como “arco-íris do hidrogênio”, o
hidrogênio branco (também chamado de geológico ou
natural) destaca-se não somente por ser uma fonte
renovável, mas também pelas vantagens sobre as
rotas manufaturadas: maior pureza, menor pegada de
carbono, custos (estimados) mais baixos e menor
consumo de água e energia.
Apesar do interesse global pelo energético, atualmente o
Mali, na África, é o único país com produção industrial de
hidrogênio natural, com uma capacidade estimada de
547,5 mil m³ de H
2
por ano (MAIGA, 2023).
No Brasil já existem localidades com indícios de
potencial exploratório de hidrogênio natural, como
Minas Gerais (Bacia do São Francisco), Rio de Janeiro
(Maricá) e Rio Grande do Sul (Bacia do Paraná)
registradas em artigos científicos publicados nesta
década. Vale destacar ainda que especialistas
identificaram outras potenciais áreas para ocorrência de
hidrogênio natural nos estados da Bahia, Ceará, Goiás,
Mato Grosso, Roraima e Tocantins. O mapeamento ainda
é incipiente, uma vez que muitas outras regiões nunca
foram estudadas.
Figura 16: Distribuição espacial dos estudos publicados e projetos em
avaliação para a exploração de H
2
natural no Brasil destacando as três
regiões que apresentaram indícios da presença de hidrogênio
Fonte: Elaboração própria.
Nota: Esta seção apresenta exclusivamente o potencial de hidrogênio natural, por se tratar de um recurso adicional aos demais aqui apresentados. O potencial de
produção de hidrogênio a partir de outras fontes não é considerado, uma vez que se trata de um processo de transformação e não de disponibilidade direta de recurso.
36
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Energia geotérmica
“ O fogo subterrâneo ferveu nas entranhas da terra, e rasgando-lhe
os flancos, arremessou aqui e ali pelas encostas aqueles enormes
calhaus ou maciços de rocha, fragmentos da primeira carcaça do
globo.” – José de Alencar. Sonhos D’Ouro, 1872.
8
37
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Energia geotérmica
Temperatura do
reservatório
Aplicação
Superiores a 150 °CGeração elétrica
Entre 90 °C e 150 °C
Aquecimento, climatização,
processos industriais
Inferiores a 80 °C
Balneários, turismo, lazer,
aquecimento de piscinas
Tabela 11: Aplicações da energia geotérmica por faixa de temperatura
Fonte: Adaptado de (Dincer, 2018).
bem-estar e usos industriais de baixa temperatura. Em
2023, seu uso total atingiu cerca de 5 EJ, equivalente a
0,8% da demanda energética mundial (IEA, 2024f).
A geração elétrica geotérmica, presente em
aproximadamente 30 países, alcançou quase 100 TWh
em 2023, operando com altos fatores de capacidade e
contribuindo para a integração de fontes renováveis
variáveis às redes elétricas (IEA, 2024f). Embora ainda
seja uma das fontes renováveis menos exploradas, a
geotermia oferece grande potencial para diversificação
das matrizes de energia térmica e elétrica, especialmente
em regiões com características tectônicas favoráveis.
A energia geotérmica converte gradientes naturais de temperatura em calor, eletricidade e
climatização, com potencial de ser ampliado por tecnologias emergentes
O que é energia geotérmica
A energia geotérmica corresponde ao aproveitamento do
calor naturalmente presente no interior da Terra, originado
tanto de processos remanescentes da formação do
planeta quanto da decomposição contínua de isótopos
nas rochas. À medida que esse calor se propaga para a
superfície, ele aquece águas subterrâneas, rochas e
reservatórios geológicos, criando gradientes térmicos que
podem ser convertidos em energia útil.
A geotermia utiliza condições naturais do subsolo para
aproveitar calor ou produzir eletricidade, sendo uma
fonte renovável, contínua e de baixa emissão (IEA,
2024f). Sua exploração também se beneficia de forte
familiaridade com práticas do setor de óleo e gás, como
perfuração de poços, caracterização de reservatórios,
testes de pressão e temperatura e interpretação
geológica, o que reduz barreiras técnicas e amplia
sinergias operacionais.
Principais aplicações
Globalmente, a energia geotérmica é usada
principalmente para aquecimento e resfriamento de
edifícios, por meio de bombas de calor geotérmicas e
redes de aquecimento distrital, além de aplicações
diretas em estufas agrícolas, aquicultura, processos
Novas tecnologias
Com o avanço das tecnologias de geotermia de próxima
geração, como sistemas geotérmicos aprimorados (EGS)
e circuitos de loop fechado, a profundidade deixa de ser
uma limitação tão rígida. Técnicas de estimulação
hidráulica e fraturamento de rochas (fracking)
permitem criar ou melhorar a permeabilidade de
reservatórios profundos e de baixa condutividade
natural, tornando possível aproveitar calor geológico
em uma gama muito maior de profundidades e
contextos geológicos (IEA, 2024f).
Isso amplia significativamente a disponibilidade potencial
de recursos geotérmicos e aproxima ainda mais essa
fonte energética de competências já consolidadas no
setor de óleo e gás, especialmente nas áreas de
perfuração, completação e engenharia de reservatórios.
38
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Energia geotérmica
Geotermia para climatização e eficiência energética
A utilização de trocadores de calor subterrâneos integrados a
sistemas HVAC (Heating, Ventilation, Air Conditioning) vem
ganhando protagonismo em Data Centers, edifícios comerciais,
shopping centers e instalações industriais em diversos países da
Europa, Ásia e nos Estados Unidos. Essa tecnologia pode
substituir, ou complementar, o resfriamento convencional por
torres de ar, que consomem grandes volumes de água tratada e
realizam a troca térmica diretamente com a atmosfera. Ao utilizar
o subsolo como dissipador térmico em um circuito fechado,
elimina-se a evaporação de água, reduzem-se as demandas
hídricas e obtêm-se ganhos de eficiência energética. Em Data
Centers, onde a climatização representa parcela expressiva dos
custos operacionais, a geotermia se configura como alternativa
técnica de boa aplicabilidade.
No contexto brasileiro, marcado por clima predominantemente
quente e elevada necessidade de refrigeração em ambientes
urbanos e industriais, a geotermia de baixa entalpia desponta
como uma aplicação de grande potencial. Ainda assim,
persistem desafios importantes, como o aprofundamento da
caracterização das temperaturas subterrâneas e o entendimento
do desempenho térmico e mecânico de trocadores enterrados,
valas geotérmicas e estacas energéticas em diferentes condições
climáticas. Esses avanços são essenciais para consolidar a
viabilidade técnica e ampliar a difusão dessa tecnologia no país
(Mazzutti, 2023).
Com clima quente e alta demanda por refrigeração, o Brasil tem na geotermia de baixa
entalpia sua aplicação mais estratégica
Aplicações com maior potencial no Brasil
A geotermia surge como uma alternativa de
diversificação para a matriz energética
nacional. No entanto, há barreiras técnicas,
econômicas e regulatórias que precisam ser
superadas para o seu aproveitamento.
Adicionalmente, a avaliação do seu
potencial no Brasil ainda se encontra em
estágio preliminar. Nesse sentido, a EPE
adotou neste estudo uma abordagem
qualitativa, reconhecendo a necessidade de
estudos futuros para quantificar o potencial
geotérmico nacional.
Estudo antigos, como o de Arboit et al.
(2013), indicam que o país dispõe de poucas
áreas com temperaturas médias e altas
adequadas para geração elétrica geotérmica
ou para usos industriais de média entalpia.
Diante dessa indicação para aplicações
tradicionais, aparecem com relevância
soluções geotérmicas de baixa entalpia,
especialmente aquelas voltadas para
resfriamento de água em sistemas de
climatização. De todo modo, cabem
estudos atualizados para verificar
aproveitamentos adicionais.
Figura 17: Mapa do potencial geotérmico em PJ/km² considerando
5km de profundidade e temperaturas superiores a 150 °C.
Fonte: Adaptado de (Project Innerspace, 2025)
39
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Petróleo e gás natural
“Às vezes o que a gente procura, não é o que a gente procura. É o
que a gente encontra.” – Chico Buarque de Hollanda
9
40
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Petróleo e gás natural
Os recursos ainda não descobertos de petróleo e gás devem promover a manutenção da
produção ao final da década
O petróleo e o gás natural desempenham funções fundamentais na economia global e na segurança
energética. Em 2022, essas fontes corresponderam a aproximadamente 53% da matriz energética
mundial (IEA, 2023e), com destaque para o setor de transportes, que ainda depende majoritariamente de
derivados do petróleo.
No contexto brasileiro, em 2024, o petróleo e o gás natural responderam por 43,6% da matriz
energética nacional (EPE, 2025). Além de sua relevância econômica, esses recursos são considerados
ativos estratégicos do ponto de vista geopolítico, sobretudo por sua capacidade de armazenamento e
pela contribuição que oferecem à segurança no suprimento de energia.
Segundo o Caderno de Previsão da Produção de Petróleo e Gás Natural do Plano Decenal de Expansão de
Energia 2035 (PDE 2035), a produção brasileira deverá alcançar o pico em 2031 para o petróleo e em
2033 para o gás natural. A partir daí, projeta-se uma queda gradual até 2035, resultado do esgotamento
natural dos campos em operação e da menor oferta de novas áreas exploratórias.
Os recursos que devem suprir e promover a manutenção da produção nos patamares do final do
decênio são os ainda não descobertos, sobretudo os de áreas de fronteira exploratória.
As áreas sedimentares mais promissoras, identificadas com potencial e com expectativas de
descobertas de hidrocarbonetos, são, no ambiente terrestre, as bacias do Solimões, Amazonas,
Parnaíba, Tucano Sul e Alagoas. Por sua vez, no ambiente marinho, as maiores expectativas são para
as bacias de Santos, Campos, Sergipe-Alagoas (SEAL), Pelotas e a Margem Equatorial, com
destaque para as bacias da Foz do Amazonas, Pará-Maranhão e Potiguar.
Figura 18: Áreas de fronteira exploratória com potencial para hidrocarbonetos,
com as chances de descobertas associadas
Fonte: Elaboração própria.
41
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Petróleo e gás natural
Bacias promissoras e reservas não convencionais podem impulsionar o futuro do gás
natural no Brasil
Utilizado amplamente na geração de eletricidade, o gás
natural destaca-se pela flexibilidade operacional das
termelétricas a gás, que permitem complementar fontes
intermitentes como solar e eólica. No setor industrial, é
empregado como fonte térmica e como insumo na
produção de fertilizantes, plásticos e outros produtos
petroquímicos. O gás natural também é utilizado no
transporte veicular, principalmente na forma de Gás
Natural Veicular (GNV). Além disso, sua capacidade de
armazenamento e despacho o torna um vetor importante
para a segurança energética.
Recentes avanços regulatórios e de formação de
mercado, somados à sinergia de programas
governamentais voltados ao gás natural vêm fortalecendo
o esforço exploratório no país.
O território brasileiro reúne áreas já em produção de
gás natural associado, como vários campos do pré-sal
com potencial de elevar a oferta, além de vastas bacias
sedimentares ainda imaturas ou de fronteira cujo perfil
geológico indica forte vocação para o gás natural.
Cabe ressaltar as extensas áreas com elevado
potencial para novas descobertas de gás natural não
associado, especialmente nas bacias de Sergipe-
Alagoas (SEAL), Solimões, Amazonas, Parnaíba e
Paraná.
Potencial em reservatórios de gás natural não
convencionais
Além dos volumes de gás natural associado e não
associado, o Brasil apresenta algumas bacias
sedimentares com provável potencial a ser explorado
em reservatórios não convencionais. Bacias
sedimentares como Parnaíba, Paraná, Solimões e
Amazonas exibem características geológicas promissoras
para o gás de folhelho, análogo ao shale gas norte-
americano, abrindo possíveis novas frentes de pesquisa e
produção.
De acordo com EIA (2011), o Brasil figura como o
décimo maior detentor de recursos de gás de folhelho
do mundo, estimados em aproximadamente 6,9
trilhões de metros cúbicos (m³). Trata-se, porém, de um
potencial obtido por analogia com formações
semelhantes em outros países. Até hoje, esses volumes
não foram confirmados em campo, pois o Brasil ainda
não conduziu estudos específicos para esse tipo de
reservatório.
Outro reservatório não convencional de interesse é o tight
gas – isto é, gás aprisionado em rochas de baixa
permeabilidade, que tambémpode ser alvo de
estudosnas bacias do Recôncavo, São Francisco e
Parecis.
Figura 19:Expectativa de fluidos predominantes segundo o
Zoneamento Nacional de Recursos de Óleo e Gás
Fonte: Elaboração própria.
42
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Petróleo e gás natural
Volumes recuperáveis de gás natural e petróleo podem garantir a oferta de óleo e gás até
2055 ...
O PNE 2055 adota, para os recursos convencionais, a
mesma metodologia de projeção de produção empregada
pela EPE em seus Planos Decenais de Expansão de
Energia (PDE). Para garantir confiabilidade às estimativas,
foram excluídos os volumes situados em áreas de elevada
complexidade socioambiental.
O estudo contempla três categorias de recursos:
▪Reservas totais – recursos descobertos, com
comercialidade declarada.
▪Recursos contingentes – recursos sob avaliação
exploratória.
▪Potencial petrolífero ou recursos prospectivos –
recursos não descobertos.
Essas categorias abrangem tanto as áreas já contratadas
por empresas quanto os blocos ainda pertencentes à
União, com base no conhecimento geológico disponível
sobre as bacias sedimentares brasileiras.
Os resultados do estudo projetam volumes recuperáveis
entre 48 e 54 bilhões de barris de petróleo e 3.533 a
3.797 bilhões de m³ de gás natural no horizonte do PNE
2055
1
. Em torno de 60% desses volumes têm alto grau de
certeza, pois englobam parcelas das reservas 1P, 2P e 3P,
enquanto o restante apresenta incerteza mais elevada.
Na hipótese de referência, os cerca de 54 bilhões de barris projetados seriam suficientes para sustentar, até 2055,
uma produção de petróleo superior à atual – hoje em torno de 3 milhões de barris por dia. Os 3.797 bilhões de m³
estimados para o gás natural correspondem a recursos convencionais já descobertos ou ainda prospectivos, sem
incluir volumes não convencionais. Até 2055, espera-se que haja um aumento da exploração de áreas mais propensas
ao gás natural, assim como é previsto o aumento desse energético na matriz energética brasileira.
Recurso
Hipótese Referência
(bilhões de barris)
Hipótese Referência
(Mtep)
Hipótese Baixa
(bilhões de barris)
Hipótese Baixa
(Mtep)
Descoberto32
4.516
32
4.516
Não descoberto22
3.105
16
2.258
TOTAL54
7.621
48
6.774
Recurso
Hipótese Referência
(bilhões de m
3
)
Hipótese Referência
(Mtep)
Hipótese Baixa
(bilhões de m
3
)
Hipótese Baixa
(Mtep)
Descoberto2.361
2.344
2.361
2.344
Não descoberto1.436
1.425
1.172
1.163
TOTAL3.797
3.770
3.533
3.508
Tabela 13: Volumes recuperáveis de gás natural projetados para 2055 e energia equivalente em Mtep
Tabela 12: Volumes recuperáveis de petróleo projetados para 2055 e energia equivalente em Mtep
¹ Estes resultados do estudo abrangem: reservas totais (recursos descobertos com comercialidade comprovada, que somam as categorias provadas, prováveis e possíveis), recursos contingentes em áreas contratadas, recursos ainda não descobertos em
áreas contratadas em fase exploratória e recursos não descobertos, sem contrato, localizados em áreas da União.
Fonte: Elaboração própria.
Fonte: Elaboração própria.
43
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Petróleo e gás natural
Categoria de Recurso
Petróleo
Reservas/Produção
(anos)
Reservas Totais24
Reservas Provadas14
Figura 20: Unidades Produtivas de recursos convencionais em áreas contratadas e em
áreas da União (não contratadas). Distribuição geográfica das UPs em áreas contratadas
(RT, RC e RND-E) e em áreas de bacias efetivas da União, contendo UPs, categorizadas
por tipo de recurso, e que consolidam as áreas prospectáveis no período do PNE 2055.
Tabela 14: Indicador (R/P): relação entre reservas e
produção para petróleo
Tabela 15: Indicador (R/P): relação entre reservas e
produção para gás natural
Categoria de Recurso
Gás Natural
Reservas/Produção
(anos)
Reservas Totais29
Reservas Provadas21
... entretanto o índice R/P desperta atenção, já que
os recursos descobertos com comercialidade
comprovada seriam insuficientes para expandir a
produção
O indicador estratégico R/P (relação entre reservas e
produção) fornece subsídios sobre o tempo de
esgotamento de reservas.
No caso do cálculo da R/P de reservas totais
1
, o País
disporia de 24 anos de petróleo e 29 anos de gás
natural. Portanto, considerando-se o horizonte de 2055, a
indicação é que somente os recursos de petróleo e gás
na categoria de recursos descobertos com
comercialidade comprovada (reservas totais) seriam
insuficientes para expandir a produção e, no caso do
gás natural, até mesmo para manter a produção apenas
nos níveis atuais.
Em 2024, as reservas provadas² brasileiras totalizavam
16,8 bilhões de barris de petróleo e 546 bilhões de m³
de gás natural, ambas predominantemente localizadas
em águas marítimas. Os correspondentes índices R/P
eram de 14 anos para o petróleo e 21 anos para o gás
natural, reforçando a necessidade de converter recursos
adicionais em reservas produtivas para assegurar a
segurança de suprimento no longo prazo.
¹ Reservas totais abrange as categorias provadas, prováveis e possíveis, não incluem recursos contingentes nem prospectivos.
² Reservas provadas são os volumes de petróleo e gás com maior grau de certeza geológica e viabilidade econômica, confirmada por estudos de
geologia, engenharia e mercado, e considerada apta à produção comercial.
Fonte: Elaboração própria.
Fonte: Elaboração própria.
Fonte: Elaboração própria.
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Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Petróleo e gás natural
Nos últimos anos, a Margem Equatorial Brasileira, em especial a Bacia da Foz
do Amazonas, e também mais recentemente a Bacia de Pelotas na Margem
Continental Sul, vêm ganhando destaque no radar exploratório mundial.
Atualmente, a Bacia da Foz do Amazonas tem 26 blocos exploratórios
contratados, e já teve iniciada a fase de perfuração de poços em pelo menos
um deles. Já na Bacia de Pelotas existem 47 blocos com contratos exploratórios
assinados, porém em fase mais inicial. Ambas impulsionadas pelas
descobertas expressivas de petróleo em bacias vizinhas, como a Guiana e o
Suriname, e em bacias análogas, como em Gana e Namíbia, na costa africana.
A razão não se restringe à proximidade geográfica ou analogias: essas bacias
compartilham plays exploratórios semelhantes. Ou seja, um conjunto de
condições geológicas que, quando favoráveis, eleva significativamente a
probabilidade de novas descobertas.
A convergência dessas características coloca a Foz do Amazonas como uma
das fronteiras mais promissoras para óleo e gás no País. Estudos recentes
conduzidos pela EPE, com apoio de consultoria especializada, estimam um
volume “in place” com risco (recursos estimados no reservatório, em
condições de superfície) da ordem de 23 bilhões de barris de óleo
equivalente (EPE, 2024b).
Este estudo foi realizado na porção noroeste da Bacia da Foz do Amazonas
apresentando estimativas que alcançam 6 bilhões de barris de óleo equivalente
recuperáveis que representam, apenas nessa área, mais de 50% do volume
descoberto na Guiana. Aproveitar esse potencial requer ação coordenada:
combinar rigor ambiental, investimento tecnológico e planejamento
estratégico.
O potencial estimado para as bacias de novas fronteiras pode contribuir para a manutenção
da produção brasileira de petróleo e gás
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Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Carvão mineral
“Alegro com brio. Tentarei tirar ouro do carvão” – Clarice Lispector.
A hora da estrela, 1977.
10
46
Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Carvão mineral
Reservas nacionais de carvão garantem oferta para geração elétrica, mas suas
características limitam o uso industrial frente a outras opções energéticas
Usos do carvão mineral no mundo
A despeito dos desafios impostos ao setor energético, em
especial o aquecimento global e a busca por uma matriz
energética cada vez mais renovável, o carvão continua
sendo a principal fonte para a geração de eletricidade
no mundo. No Brasil, por outro lado, a sua contribuição é
relativamente baixa no setor elétrico.
No entanto, o seu uso vai além da geração de
eletricidade. Como aponta a Tabela 16, o carvão em
níveis de maior qualidade também é utilizado em
aplicações industriais, como na siderurgia.
Disponibilidade das reservas nacionais
Os recursos carboníferos do Brasil são da ordem de 32
bilhões de toneladas e estão concentrados no sul do País,
assim distribuídos: 90,1% no Rio Grande do Sul, 9,6%, em
Santa Catarina e 0,3% no Paraná (DNPM, 2000),
conforme mostra a Figura 21.
No entanto, o carvão nacional, do tipo linhito e sub-
betuminoso, é de baixo teor de carbono. Essa
característica faz com que seja utilizado principalmente
para fins termelétricos. No caso de aplicações industriais,
como na siderurgia, é utilizado carvão importado, em
função da sua melhor qualidade.
Potencial de produção termelétrica
Para o PNE 2055, adotou-se uma abordagem
conservadora, considerando exclusivamente as reservas
medidas (aquelas com maior nível de certeza), estimadas
em 26 bilhões de toneladas — o que equivale a 7.156
milhões de toneladas equivalentes de petróleo (Mtep).
Nesse caso, estima-se que as reservas nacionais atuais
seriam suficientes para abastecer até 46 usinas
termelétricas a carvão com potência unitária de 500
MW, ou 23 GW instalados. Como referência, atualmente o
Brasil possui cerca de 3 GW instalados. Portanto, as
reservas nacionais seriam suficientes para atender uma
grande expansão desse setor no país, caso necessário.
Fonte: Elaborado a partir de DPNM (2000).
Tipo
Teor de
Carbono
Principais aplicações
Turfa< 60 %
Uso doméstico local, raramente
usado industrialmente
Linhito60 a 75%Termelétricas
Betuminoso
(hulha)
75 a 85%
Termelétricas, coque para
siderurgia
Antracito> 90%
Aquecimento residencial e
industrial, processos
metalúrgicos.
Figura 21: Recursos de carvão mineral (reservas totais e recursos
marginais) – em mil toneladas
Tabela 16: Classificação do carvão mineral
Fonte: Elaboração própria de ABCM (2014).
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Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Urânio
“Abertas as montanhas, rota a Serra, vê converter-se em ouro a
pátria terra” – Cláudio Manuel da Costa. Vila Rica, 1773.
11
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Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Urânio
Com a oitava maior reserva de urânio do mundo, o Brasil reúne condições para um papel
estratégico na cadeia nuclear global
A ótica estratégica
A energia nuclear no Brasil possui aplicações diversas,
abrangendo áreas como medicina, indústria, agricultura,
meio ambiente e, principalmente, a geração de energia
elétrica.
Reconhecendo seu papel estratégico, o governo
brasileiro implementou programas visando o
fortalecimento do setor por meio de políticas
industriais, tecnológicas e regulatórias. Destaca-se a
revitalização do Programa Nuclear Brasileiro (PNB). Os
objetivos estratégicos para o setor nuclear incluem a
consolidação do Brasil como fabricante competitivo de
combustível nuclear, com domínio de todas as etapas do
ciclo produtivo, incluindo o comissionamento de usinas e
a produção de equipamentos. Um marco importante é o
projeto do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), que
busca garantir a autossuficiência na produção de
radioisótopos, com investimentos previstos até 2026.
Cabe ressaltar que o Brasil, conforme o documento
“Estratégia Nacional de Defesa” (BRASIL, 2016),
elaborado pelo Ministério da Defesa, também reforça o
comprometimento decorrente da Constituição Federal e
da adesão ao Tratado de Não Proliferação de Armas
Nucleares, do qual é signatário, que garante o uso
estritamente pacífico da energia nuclear.
O uso para a geração de eletricidade
A geração de eletricidade a partir da energia nuclear
possui algumas características importantes no contexto
de transição energética. A primeira é a geração
praticamente contínua, sem estar sujeita à
variabilidade de recursos naturais. A segunda é a baixa
emissão de gases de efeito estufa durante a operação.
Por fim, destaca-se a sua alta densidade energética e a
possibilidade de instalação de usinas próximas aos
centros de carga, reduzindo a necessidade de novas
linhas de transmissão.
Disponibilidade das reservas nacionais
As reservas nacionais medidas, indicadas e inferidas de
urânio somam 295 mil toneladas de U
3
O
8
, considerando
as jazidas em exploração, havendo mais 300 mil
toneladas estimadas em outros sítios, que corresponde à
8ª maior reserva do mundo. Além disto, o País domina o
ciclo do combustível, que vai da mineração de urânio à
fabricação do chamado elemento combustível, podendo,
caso invista nas etapas desta cadeia, figurar no seleto
grupo de países prestadores de serviço para essa
indústria.
Tabela 17: Reservas brasileiras de urânio por depósitos
Depósito – Jazida
Medidas e
Indicadas
(U
3
O
8
t)
Inferidas
(U
3
O
8
t)
Total
(t)
Total
(Mtep)
Caetité (BA)51.52035.56987.089678
Santa Quitéria (CE)91.20051.300142.5001110
Outras
1
39.50026.30065.800512
Total182.220113.169295.3892302
Potencial de Mineralização:
Pitinga (AM) – 150.000 t
Rio Cristalino (PA) – 150.000 t
Fonte: Elaboração própria a partir de INB (2024).
Com o conhecimento das atuais reservas chega-se ao
potencial de 155 mil toneladas de urânio recuperável,
suficientes para o atendimento de Angra 1, 2, 3 e
mais 8 novas usinas de 1.000 MW por 60 anos (vida
útil estendida da planta).
¹ Incluem as seguintes reservas geológicas: Campos Belos (TO), Rio Preto (TO), Espinharas (PB), Amorinópolis (GO), Quadrilátero Ferrífero (MG), Poços de Caldas (MG) e Figueira (PR).
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Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Urânio
O Brasil domina o ciclo do combustível nuclear, podendo, caso invista nas etapas desta
cadeia, figurar no seleto grupo de países prestadores de serviço para essa indústria
Do urânio ao combustível nuclear
Após a mineração do urânio, há uma série de etapas para a
fabricação do combustível que será utilizado nas centrais nucleares.
A etapa de mineração e beneficiamento, que produz o concentrado de
urânio (yellowcake), é feita no Brasil. Após o beneficiamento, o U
3
O
8
ainda necessita ser refinado antes da conversão em hexafluoreto de
urânio (UF
6
) para o posterior enriquecimento. Atualmente, esta etapa
é realizada no Canadá. Em seguida, a URENCO, um consórcio
europeu, realiza a etapa de enriquecimento do urânio para o Brasil. As
etapas posteriores, de fabricação do elemento combustível (pastilhas
e varetas de combustível) são realizadas no Brasil, em Resende (RJ).
O combustível é utilizado nas centrais nucleares em Angra dos
Reis (RJ). Por fim, a empresa Eletronuclear é responsável pelo
gerenciamento de rejeitos em suas instalações, o que inclui desde a
guarda dos materiais radioativos, até a sua disposição final em
instalações projetadas para o armazenamento de longo prazo, cuja
responsabilidade legal de implantação e operação é da Comissão
Nacional de Energia Nuclear (CNEN).
Portanto, apesar do domínio nacional sobre grande parte do ciclo, o
Brasil ainda transfere parte da produção para o exterior. Avanços têm
sido feitos para nacionalizar cada vez mais a produção do
combustível nuclear. Esse avanço é crucial para garantir a
autonomia completa do País e fortalecer sua posição estratégica no
setor.
Figura 22: Esquema do ciclo aberto do combustível nuclear no Brasil
Extração do
minério
Beneficiamento
do urânio
Conversão
U
3
O
8
em UF
6
Enriquecimento de
urânio 235
Fabricação do
elemento
combustível
Geração Central
Nuclear
Armazenamento
temporário
Disposição
Definitiva
Caetité (BA)
Unidade de
Concentração de
urânio (Caetité – BA)
Cameco
Canadá
Consórcio
Internacional
Urenco
Fábrica de
Combustível Nuclear
(Resende – RJ)
Angra 1 e Angra 2
(Angra dos Reis – RJ)
Fonte: Elaboração própria.
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Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
Referências bibliográficas
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Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
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Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
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SAUER, I. L. et al. (2011). Energia, Recursos Minerais e Desenvolvimento. 9º CONSENGE: Energia e Meio ambiente. Caderno de teses. Edição eletrônica: Federação Interestadual de
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World Energy Council (2007). 2007 Survey of Energy Resources. 2007. ISBN: 0 946121 26 5.
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Plano Nacional de Energia 2055 | Potencial dos Recursos Energéticos
AGRADECIMENTOS
Ao longo deste estudo foram realizadas reuniões com outras instituições a fim de receber contribuições para a elaboração do inventário de recursos energéticos do Plano Nacional de
Energia 2055.
Nesse sentido, cumpre ressaltar as contribuições do Ministério da Agricultura, Pesca e Abastecimento (MAPA), na pessoa de Eliana Teles Bastos, além das demais contribuições para o
PNE 2055.
Ressalta-se, também, a colaboração da academia, através da participação da COPPE/UFRJ, do Grupo de Energias Renováveis do Mar (GERO) – representado por Milad Shadman e Segen
Stefen, laboratório de tecnologia submarina COPPE/UFRJ & Seahorse Wave Energy, que revisou o material sobre o tema.
A EPE agradece a todos os que participaram e contribuíram para a elaboração deste estudo, incluindo a equipe que se envolveu em suas etapas iniciais, quando integrava os quadros da
empresa.
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Caderno de Potencial dos Recursos Energéticos – v2 – Maio 2026
Emitido por elety
Assinado em 18/08/2026
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